segunda-feira, 10 de junho de 2013

Muito obrigadinho! (Versão longa)

Ilustração de José Carlos Fernandes

Eis o meu texto de ontem na revista do CM, sobre um tema que até já abordei aqui num post:

Há certas expressões que se barricam nas cordas vocais dos miúdos para a partir daí atentarem diariamente contra a moleirinha dos progenitores. No caso do Gui, a sua última arma de repetição linguística é o “muito obrigadinho”. Não faço ideia onde é que ele descobriu o “muito obrigadinho”, mas sei que um dia chegou a casa com ele e foi amor à primeira vista. Estão a ver aqueles pares de ténis que os miúdos adoram e se recusam a descalçar? Assim aconteceu com o “muito obrigadinho”: afeiçoou-se de tal maneira que o repete 27 vezes ao dia.

Convém notar que “muito obrigadinho” não tem nada a ver com “muito obrigado”. Não é um “muito obrigado” pequenino, não é um “muito obrigado” carinhoso, não é sequer um “muito obrigado” envergonhado, até porque se assim fosse não ia estar aqui a chatear o leitor com este tema – estaria, antes, a celebrar a superior educação do meu filho número 3. Ora, “muito obrigadinho” está para a boa educação como “vai dar banho ao cão” está para a higiene canina. De facto, trata-se apenas de uma manifestação de sarcasmo, actividade que o meu filho Gui domina surpreendentemente bem, apesar de ter apenas cinco anos de idade.

Como qualquer pessoa normal (embora de forma menos voluntariosa do que uma pessoa normal), o Gui usa a expressão "muito obrigado" no sentido tradicional do termo, ou seja, para agradecer qualquer coisa que alguém fez por ele. Já a expressão "muito obrigadinho" é usada para desagradecer não terem feito por ele qualquer coisa que ele queria. E garanto-vos que todos os dias o Gui quer que as pessoas façam imensas coisas por ele – daí a sua irritante transformação em metralhadora de “obrigadinhos”, para infelicidade dos seus pais e irmãos.

Mas há mais. É que, ao mesmo tempo que debita “obrigadinhos”, ele ultrapassa o estrito domínio da oralidade, entrando no campo da expressão corporal. Cada “muito obrigadinho” é invariavelmente acompanhado por alguns espasmos do tronco e um q.b. de choraminguice, assim à laia de prolegómenos para uma birra futura. Ora, todo este conjunto semiótico tem demasiada pregnância para o meu gosto, e às tantas estou a perseguir a máquina de “muito obrigadinhos” pelo corredor, com a paciência muito diminuída. Eu já sabia que os diminutivos eram uma praga da língua portuguesa, mas não estava à espera de ter um filho como hospedeiro. Muito obrigadinho, ó Gui.

3 comentários:

  1. Não gostei nada da parte dos diminutivos serem uma praga da língua portuguesa, eu cá gosto tanto deles!

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    1. Eu não gosto nem desgosto dos diminutivozinhos! ;-)

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  2. Que giro!
    Entao é mais ou menos como os alemaes, que quando dizem
    JA = SIM
    mas quando dizem
    JA JA = LECK MICH AM ARSCH (literalmente "lambe-me o rabo", mais ou menos como o "kiss my ass" americano)...

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