sexta-feira, 3 de maio de 2013

Balotelli e a deontologia

Escreveu um leitor a propósito do caso Balotelli e Fanny, que se encontra aqui e aqui:

Em todo o caso, não enchamos a boca de liberdade de expressão para justificar as mais ilustres baboseiras: se os blogues (ou os blogueiros) não têm um código-de-não-sei-o-quê, que ainda existe nalguma imprensa (seja ou não seguido), tal não deverá servir de desculpa para a parvoeira, o insulto ou a idiotia. E não estou a dizer que foi aqui o caso - porque não acho que tenha sido - mas, antes, que deve haver um módico de contenção na utilização da liberdade de expressão, tão preciosa e tão conquista de Abril... 


Eu sou jornalista, e portanto levo a sério o meu código deontológico, inclusivamente neste blogue. Mas convém não confundir as exigências do jornalismo com as da opinião Tal como o leitor, acho que os blogues e as redes sociais são muitas vezes um espaço onde campeia o insulto e onde muita gente se permite utilizar um tom de linguagem que jamais usaria num jornal. É evidente que não concordo com isso - é, aliás, uma forma de cobardia dissimulada, no meu entender.


Mas isso não tem nada a ver com o caso em concreto do Balotelli e da Fanny. Os factos são estes: 1) saiu uma notícia em inúmeros jornais que foi comentada por inúmeras pessoas, 2) essa notícia foi posteriormente desmentida por um clube de futebol, 3) um leitor entendeu que eu devia um pedido desculpas a Balotelli. Passando ao lado da questão de a notícia ainda assim poder ser verdadeira, aquilo que eu quis alertar é que é impossível exigir uma responsabilidade solidária entre quem dá a notícia e quem a comenta, sob pena de se tornar impossível qualquer discussão no espaço público.


Ou seja, se o jornal que deu a notícia em primeira mão errou, ele deve pedir desculpa; quem comentou a notícia (como é o meu caso) deve dar conta desse erro, por honestidade intelectual; em última análise, até pode pedir desculpa, se se provar que é algo gravíssimo para a honra do envolvido; mas quem comentou, na verdade, não tem de pedir desculpa, no sentido em que não tem culpa.


Dou-vos um exemplo concreto que se passou comigo. Em 2009 eu fui processado pelo então primeiro-ministro José Sócrates por causa deste texto. Ao contrário do que foi excessivamente noticiado, o principal argumento do processo não se prendia com a comparação da sua moral política à virgindade da Cicciolina, mas sim com a frase "o apartamento de luxo comprado a metade do preço". E o argumento era: que provas tinha eu de que efectivamente o seu apartamento tinha sido comprado a metade do preço?


Atenção: à primeira vista, a pergunta até pode parecer legítima. Então não temos todos de ser capazes de provar aquilo que dizemos? De facto, não, não temos. Porque se o tivéssemos de provar, como referi no post anterior, o resultado seria o silenciamento do espaço público. A notícia do apartamento a metade do preço saiu no jornal Público, numa investigação bem fundamentada. Eu, como colunista, li a notícia como boa (aliás, continuo a achar que é boa), podia argumentar porque é que ela me parecia boa, e a partir daí tenho todo o direito de a comentar, mesmo não sendo capaz de provar a sua veracidade (porque não fui eu que fiz a investigação). 


É isso que todos nós fazemos o tempo inteiro - afinal, quantas vezes conseguimos provar, no sentido mais estrito do termo, aquilo que comentamos? Em última análise, nem sequer conseguimos provar que o homem foi à Lua - as imagens (como, aliás, muitos defendem) podem perfeitamente ter sido filmadas num estúdio de Hollywood.


É evidente que em tudo tem de haver responsabilidade e bom-senso. Mas o "então prove", disfarçado de frase aparentemente ponderada, é demasiadas vezes um convite a que todos estejamos caladinhos - sobretudo na política portuguesa. Para quem estiver interessado no tema, este texto aqui também é meu (apesar de não me estar atribuído), e em tempos debati o assunto no Jugular, com a Fernanda Câncio, aqui.

4 comentários:

  1. Ena! Nao sabia que eras tao importante, Joao! Entao o menino foi processado por Sua Excelência o Sr. 1°Ministro a.d.??? Como diriam os alemaes: Respekt!
    Nao conhecia o o texto e, para variar, gostei.
    Manda-me um autógrafo, pá!

    Beijinhos da Teresa Alexandre

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  2. Eu também acho super chique ser-se processado pelo ex-1º.

    Li todos os textos aqui indicados e percebi perfeitamente o que quer dizer e não só aceito como reitero.

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  3. Compreendo o que quer dizer e concordo. Por outro lado não deixa de me espantar a facilidade com que se fazem acusações vagas, que deixam no ar a suspeita e que, no limite, arruinam a vida de alguém.
    Sou a favor (totalmente) da liberdade de imprensa, mas tb acho que a imprensa deve ser responsável. E por responsável não quero dizer responsabilizada. refiro-me antes a uma imprensa preocupada em garantir que aquilo que publica é factual e não um chorrilho de "diz-que-disses".
    E, obviamente que a minha preocupação não é propriamente o caso Balotelli e Fanny :-)

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  4. Atirar-se à Jugular é meritório. Daquela Fernanda, canso-me!
    Agora a parte mais séria: a sua linha de argumentação na luta contra o "então prove" foi enriquecedora para mim. Não tenho especial simpatia pelas acusações ad hominem gratuitas e enlameadoras de corrupção. Mas nem todas as acusações são dessa natureza, por mais que os apontados queiram que assim pareça.
    Muitas vezes me engasgo mentalmente quanto recebo uma réplica de "Então prova! Ou então não fales". E eis que leio uma boa base de explicação para a distinção entre o trigo e o joio.

    Abraço de outro pai mais horrível

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