sábado, 16 de março de 2013

Sssssssht, baixinho, se faz favor

Um pai sente que está a fazer o seu trabalho bem feito quando os filhos andam a sussurrar pela casa às 11 da manhã, porque a irmã mais nova está a dormir. Como suponho que vá durar pouco, decidi vir para aqui vangloriar-me antes que acabe.


sexta-feira, 15 de março de 2013

Dilema dos Amantes IV

Voltando ao tema do Dilema dos Amantes, devo dizer que subscrevo boa parte dos comentários da Teresa e da Marta, e percebo quando elas sentem necessidade de sublinhar que as pessoas ainda se esforçam por sustentar as suas relações. Eu não quero de forma alguma dar a entender que as separações dos dias de hoje são feitas de ânimo leve. Não são. Continuam a ser tão dolorosas quanto sempre foram. Agora, o que não há a menor dúvida - são factos estatísticos - é que são em muito maior número. Porque são muito mais os divórcios e certamente muito mais as relações amorosas que uma pessoa estabelece ao longo da vida. Ou seja, é indesmentível que as pessoas se estão a separar mais, e mesmo certas flutuações pontuais não afectam a tendência geral.

As explicações para isso não são necessariamente negativas. Acredito que hoje em dia a exigência de honestidade numa relação seja muitíssimo superior à de antigamente, as infidelidades não são admitidas como eram e os papéis de homem e mulher estão, felizmente, muito mais equilibrados. Tudo coisas boas. Mas quando se considera a duração de uma relação amorosa como um bem em si (ainda que não a qualquer custo, como é óbvio) uma pessoa não se interroga apenas "porque é que isto está a acontecer?", mas também "o que é que eu posso fazer para o evitar?"

Diz a Marta: "Hoje em dia, as pessoas, os casais, são apenas racionais: estão juntos enquanto isso os faz felizes." Com certeza. A questão está em saber de que forma se consegue aumentar a longevidade dessa felicidade. Num dos comentários, a Ana Rute Cavaco cita o teólogo luterano alemão Dietrich Bonhoeffer, que disse a propósito do casamento: "não é o teu amor que sustenta o casamento mas, a partir de agora, o casamento que sustenta o teu amor". Para quem tem uma visão sagrada do matrimónio, isso é sem dúvida uma verdade. Mas eu nem quero entrar por aí, porque para todos os efeitos a minha fé não é grande coisa.

O que me interessa, e eu já tentei sublinhar isso anteriormente, é saber se as relações soçobram mais nos dias de hoje por nós também sermos mais egoístas, e vivermos mais centrados na satisfação das nossas necessidades individuais. Isso pode estar relacionado com coisas como casar mais tarde, o que dificulta o encaixe do outro nos nossos hábitos; ou no cultivo assolapado de uma frase que odeio de morte: "eu sou como sou", pináculo do egocentrismo idiota, como se estivéssemos impedidos de corrigir os nossos erros e tentarmos ser pessoas melhores.

Em resumo, a tese é esta: não só temos dificuldade em abdicar daquilo que nos dá prazer no imediato em nome de princípios abstractos, como nos custa colocar os desejos do outro à frente dos nossos. E isso, cá para mim, é caminho andado para que tudo numa relação venha a correr mal.


quinta-feira, 14 de março de 2013

Passatempo "O Pai Mais Horrível do Mundo"

Desde que começámos este blogue que tínhamos a intenção de ir promovendo uns passatempos, coisa que tem acontecido pouco por estarmos frequentemente ocupados a promover filhos. Mas agora que saiu o meu primeiro livro infantil pós-blogue, que é uma coisa de que muito me orgulho, há aqui uma óptima janela de oportunidade que deve ser aproveitada.

Portanto, cá vai: a nossa família e a Esfera dos Livros, que também é uma espécie de pequena família, tem para oferecer cinco exemplares de O Pai Mais Horrível do Mundo, devidamente autografados (se não quiserem autógrafo para depois poderem vender com mais facilidade no Custo Justo também se arranja), às cinco melhores fotografias ou textos (máximo de 1200 caracteres, se faz favor) subordinadas ao tema Eu é que sou o pai mais horrível do mundo.

Para não me acusarem de estar a excluir leitoras, o tema também pode ser Eu é que sou a mãe mais horrível do mundo. As respostas devem ser enviadas até às 21 horas do dia 19 de Março, terça-feira (para os mais esquecidos, é o Dia do Pai, e a hora a que costumamos deitar os miúdos), para o mail paisdequatro@gmail.com. Mandem também no mail a vossa identificação e morada para o envio do livro, caso sejam os felizes contemplados.

Vá, esforcem-se lá, que este é o primeiro passatempo do blogue, e não queríamos estar a inventar respostas e fotografias só para fingir que isto foi um sucesso quando, na verdade, ninguém concorreu. Pais e mães horríveis, três últimas palavras: aproveitem e vinguem-se.


Segunda Guerra Mundial ao jantar

Fartíssimo de ter uns jantares que se resumiam a variações de "come a sopa, pá!", "não te levantas da mesa antes de acabar!" e "não, não há água enquanto não engolires dez colheres!", decidi tornar-me professor de História às refeições. Nos anos do Tomás oferecemos-lhe um livro sobre a Segunda Guerra Mundial, e agora ele é a nossa companhia diária.


E porquê começar logo com uma coisa levezinha, tipo bombardeamentos aéreos e Holocaustos? Bom, porque é preciso manter o público interessado, senhoras e senhores. E a Segunda Guerra Mundial sabe, de facto, agarrar uma audiência (além de que percebo muito mais dela do que da Guerra dos Cem Dias).

Começámos as lições com a ascensão de Hitler ao poder e a perseguição aos judeus, avançámos para a Blitzkrieg, estacionámos na evacuação de Dunquerque e já começámos a preparar a Batalha de Inglaterra. E sabem que mais? Está a funcionar maravilhosamente. Demasiado maravilhosamente, diria eu, sobretudo nos dias em que há bola e os tenho de informar que os embates entre Spitfires e Messerchmitts estão em suspenso em virtude do Benfica ir jogar a Bórdeus. Infelizmente, eles estão tão fascinados com o passado que demonstram uma certa insensibilidade ao presente.


Mas devo dizer-vos que estou mesmo espantado com o interesse deles no tema, e é extraordinário como os miúdos são uma esponja que absorve tudo. A Carolina ficou tão sólido-historicamente documentada, que no outro dia chegou indignadíssima a casa porque um miúdo lhe tinha chamado nazi na escola.

- Eu perguntei ao menino: "tu sabes o que me estás a chamar?" Tu estás a dizer que eu fui responsável pela morte de milhões de pessoas!

Uau, nada como indignação erudita. Claro que no dia seguinte estava a divagar sobre a invasão da Europa pelas Divisões Pâncreas (ela queria dizer "Divisões Panzer"). Mas passo a passo chegaremos lá. Até ao Dia D e à vitória final!

Leituras de "O Pai Mais Horrível do Mundo"

A Joana Silva enviou-me uma foto giríssima do seu filho João a ler o meu último opus, O Pai Mais Horrível do Mundo. E deixou que eu a partilhasse aqui:


De caminho, aproveito para relembrar que o lançamento do livro vai ser já no próximo sábado, pelas 17 horas, na Fnac Chiado. A apresentação é do Ricardo Araújo Pereira, e eu gostava muito de poder conhecer, em carne e osso, algumas das leitoras e leitores deste blogue. Passem por lá.


quarta-feira, 13 de março de 2013

Comentários ao Dilema dos Amantes

Os últimos posts sobre o "Dilema dos Amantes" (aqui e aqui) deram origem a duas contestações que não merecem ficar perdidas nas caixas de comentários.

Diz a Marta Dinis:

Tenho estado a ler atentamente os posts sobre este tema e, na verdade, não posso discordar mais. As pessoas devem ficar juntas porque é isso que querem e não apenas porque assumiram um compromisso. O problema de muitos relacionamentos é precisamente esse: centram-se no compromisso e nos planos para o futuro.
Olho à minha volta e, do alto dos meus 35 anos, vejo amigos que continuam (bem) casados, amigos que se divorciaram e recomeçaram uma nova vida (sozinhos ou acompanhados); alguns que continuam solteiros (por opção) e, felizmente, apenas dois ou três que vivem casamentos ou relações profundamente desgastadas.E o que esperam? Esperam comodamente que alguma coisa os vá arrancar dali. Não conseguem tomar uma atitude e estão à espera que alguém os salve (que tanto pode ser um novo amor como a tomada da decisão final pelo outro cônjuge). 

Isto é, a meu ver, o progresso. Não vale a pena dizer que as pessoas não lutam, não se dão ao trabalho, não fazem sacrifícios, não pensam nos filhos (acho, aliás, este discurso uma coisa de há dois séculos). Hoje em dia, as pessoas, os casais, são apenas racionais: estão juntos enquanto isso os faz felizes. E adiar o fim acaba sempre por ser pior para toda a gente: para os próprios, para os filhos e para a família.

Diz a Teresa Pinho:

O João (ou eu, ou tantas pessoas que conheço, ou o Samuel Úria, ou as pessoas que aqui no blogue deixam comentários nesse sentido) conseguem pensar em mais do que o estado de paixão permanente. Acha mesmo que somos uma minoria? Olhando para os casais que me rodeiam vejo as pessoas a negociar e a fazer um esforço para que tudo resulte bem para ambos como não se fazia na geração dos meus avós nem dos meus pais.(E tenho 30 anos.)

Diz - como diz muita gente, aliás, - que as pessoas se separam a velocidades estonteantes, sempre à procura de um Mr. Right (e de uma Ms. Right, acrescento eu) que nunca aparece. Mas é mesmo a isso que o João assiste nas pessoas que o rodeiam? É que a mim isso parece-me mais o "Sex and the City" do que a realidade que observo à minha volta.

E como bónus a Teresa deixa bibliografia:

Aboim, Sofia (2011). Vidas conjugais: do institucionalismo ao elogio da relação. In Almeida, Ana Nunes (Eds.), História da vida privada em Portugal: os nossos dias (pp. 80-111). Lisboa: Círculo de Leitores / Temas e debates.


Eu a esta hora da madrugada já estou demasiado acabado para responder a comentários com bibliografia. Mas o tema interessa-me muito e vou certamente voltar a ele. Como diria este blogue se ele fosse uma telenovela brasileira: "me aguardem..."

terça-feira, 12 de março de 2013

Ufa, ufa, ufa, ufa

Preciso de dias com 48 horas. Alguém tem para venda?


Tão jovem e já a roubar

Não me perguntem porquê, mas esta passou a ser a actividade favorita da Rita quando está ao colo da Teresa. Aqui foi apanhada em flagrante delito. Reparem como já está a desenvolver o olhar sim-eu-sei-que-estou-a-fazer-asneira-mas-faço-na-mesma. Começa cedo, a menina.


Dilema dos amantes III

Está fora de moda, cara Teresa, pela simples razão de que somos cada vez menos sensíveis ao adiamento das gratificações imediatas. Há um lado bom nisso, na medida em que durante séculos e séculos as pessoas viviam enfiadas em relações nas quais não acreditavam, e onde a traição masculina era aceite pacificamente. Que hoje em dia tal seja impensável é obviamente um ganho. Mas, por outro lado, exige-se agora que o amor seja uma paixão permanente, o que é de todo impossível. Resultado: as pessoas separam-se a velocidades estonteantes, sempre à procura de um Mr. Right que nunca aparece, ou que aparece apenas durante curtíssimos períodos de tempo. Eu diria que, nesta questão, a virtude está mais ou menos no meio: nem deixarmo-nos arrastar em relações sem futuro, nem levar o "carpe diem" a um extremo tal que parece que a única coisa que importa é o presente.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Ups (o final feliz)

Esperem, acho que encontrei o comentário num outro mail meu. Era este:

Haverá certamente muita gente que não suspende os próprios impulsos como há também muita gente que os suspende, como sempre houve. E acaba por não dizer, mais uma vez, porque acha que está fora de moda...

Teresa Pinho

Tentarei voltar ao tema ainda hoje.

Ups

Este é um post só para a Teresa Pinho (que penso ter sido a leitora que esteve na origem do penúltimo post): acabei de apagar sem querer o seu comentário, e nesta coisa dos blogues não há lixo onde ir recuperar textos. Importa-se de o reescrever outra vez? Era importante. Peço imensa desculpa.

Estão todos convidados

Dilema dos amantes II

Neste post eu citava um excerto do último livro do Afonso Cruz ("Se ele a enganar, é porque não tem carácter, e não o quero. Se não a enganar, quero-o, mas jamais o terei.") e acrescentava que aquelas duas frases compunham um magnífico paradoxo conservador, infelizmente muito fora de uso. Nos comentários a esse post, um leitor (ou uma leitora, não faço ideia, porque o comentário é anónimo) perguntava: "JMT, porque acha que é tão fora de uso?" É uma pergunta que merece resposta.

E posso começar por responder com um outro post que escrevi, sobre uma canção de Samuel Úria que anda a rodar nas rádios. Chama-se "Eu Seguro" e é um maravilhoso dueto com Márcia sobre o mais improvável dos temas pop: o amor monogâmico. Eu tive oportunidade de entrevistar o Samuel Úria para a Time Out e fiz-lhe uma pergunta especificamente sobre esse tema. E ele disse isto: "O amor é muitas vezes uma coisa que se quer sustentar, e não pelas formas mais românticas e idílicas. O casamento é um compromisso. E o compromisso é um amor duro que merece ser cantado."

Infelizmente, esta última e extraordinária frase do Úria - "o compromisso é um amor duro que merece ser cantado" - é assim como o excerto do Afonso Cruz: está tristemente fora de moda. Tão fora de moda que parece só fazer sentido no âmbito da fé. Úria é baptista, e a ideia da indissolubilidade do casamento está hoje em dia confinada ao quintal das religiões.

Eu obviamente não acho que as pessoas infelizes devam arrastar casamentos pela vida fora. Mas acho que muitas vezes falta perspectiva e capacidade de resistência. As frases de Samuel Úria e Afonso Cruz encontram-se nisto: na suspensão de um impulso em nome de um bem superior. É isto que está fora de moda.

Claro que eu escrevo estas palavras e já me estou a sentir padreco. Provavelmente é inevitável. Ainda por cima, a minha complexa relação com a Igreja Católica levou-me a desenvolver uma profunda alergia à palavra "sacrifício". Mas sou sensível a um conceito que atravessa a natureza e é o coração da fábula da formiga e da cigarra: a capacidade de adiar uma gratificação imediata.

Curiosamente, educar uma criança é estar o tempo todo a ensinar-lhe isso: não fazer o que lhe apetece a cada momento, em nome de uma série de princípios superiores. Mas quando chegamos a adultos parece que nos libertámos para sempre do jugo dos deveres, pelo menos no que às matérias amorosas diz respeito. Se uma relação não está sempre bem parece que não vale nada. Se eu me sinto atraído por uma colega de trabalho então é porque o meu amor à minha mulher já não é o mesmo de antigamente. Erro, erro, erro. O amor às vezes é duro. E é essa dificuldade em compreender o "amor duro", como Úria lhe chama, que dá cabo de imensas relações.

E o que entendo eu por "amor duro"? É precisamente aquilo que está escrito na primeira estrofe de "Eu Seguro":

Quando o tempo for remendo,
Cada passo um poço fundo
E esta cama em que dormimos
For muralha em que acordamos,
Eu seguro
E o meu braço estende a mão que embala o muro.

A paixão é só rosas. Amor é o que suporta os espinhos. Sabem qual é o último verso da canção?

Eu seguro,
Que o presente é uma semente do futuro.

E é mesmo. Cá vai outra vez:


domingo, 10 de março de 2013

Angry Birds nos joelhos

Eis o meu texto de hoje na revista do CM:

Há uns dias a Teresa pediu-me para ir falar com o Tomás:

- “Ele não quer vestir as calças do fato de treino. Acho que é por causa das joelheiras dos Angry Birds que lhe pusemos. Foi ele que as escolheu, mas agora diz que não as quer usar. Deve estar com vergonha.”

O Tomás é um futebolista destemido que rasga um par de calças de fato de treino a cada 15 dias, mas aquilo que o preocupava naquele momento não era os gastos desproporcionados na costureira. Ele estava (outra vez) envergonhado. Cabeça baixa, olhos no chão, respostas monossilábicas. Fui eu que tive de completar as suas frases, extraindo-lhe a confissão a saca-rolhas. Sim, os amigos do futebol tinham começado a gozar com ele por ter uma personagem dos Angry Birds em cada joelho. Sim, ele sabia que tinha sido ele a escolher as joelheiras. Mas não, não queria ser gozado outra vez. E já que estava com a mão na massa quanto a queixas de guarda-roupa, aproveitou para criticar alguma da sua roupa interior com ursinhos, que também era alvo de comentários jocosos no recreio da escola.

Se a Teresa estava à espera que eu pusesse a minha voz de mau e começasse a pregar a favor da acção afirmativa no recinto escolar, enfiando lá pelo meio uma nota de rodapé sobre a necessidade de impor a própria individualidade sem receio do olhar dos outros, então ela escolheu o pior gajo do mundo para o fazer. Não é que eu não acredite nisso – acredito, gostava que fosse assim, e até ensaiei um rascunho desse discurso. Expliquei ao Tomás que os Angry Birds eram um jogo de gente grande, que não tinha razões para ter vergonha. Mas ainda o intróito ia a meio e já eu me estava a sentir brutalmente hipócrita. E hipócrita porquê? Hipócrita porque o Tomás é demasiado parecido comigo e eu passei por tudo aquilo que ele está a passar agora, com a diferença de que na altura os Angry Birds ainda não tinham sido inventados. Tenho vivíssimo na minha memória um dia de Inverno em que levei para a escola um guarda-chuva com vários padrões de cinza – não imaginam o que eu fui gozado só pelo facto de o guarda-chuva não ser todo preto. Nunca mais me atrevi a pegar-lhe. As crianças são muito cruéis e há uma altura certa para nos libertarmos do olhar dos outros. Essa altura, para o Tomás, ainda não chegou. A Teresa estendeu-me umas novas calças de fato de treino, e eu vesti-lhas, tão contente quanto ele.


A ilustração, como sempre, é do José Carlos Fernandes, que desta vez apostou numa versão imberbe da minha pessoa.


A primeira audição da Carolina

E depois de seis meses a aprender piano, a primeira prova à frente de muitas pessoas.

O programa de sala:


A actuação:


E a foto para a posteridade: