sexta-feira, 31 de maio de 2013

Sessão de autógrafos na Feira do Livro

Para as três pessoas que estiverem interessadas, eu amanhã vou estar na Feira do Livro a dar autógrafos e a ler uma história. Os autógrafos estão marcados para as 16.30, junto ao pavilhão da Esfera dos Livros. Terei a companhia do João Fazenda, ilustrador de O Pai Mais Horrível do Mundo, e que faz uns belos desenhos autografados. A leitura de um dos meus livros será às 18 horas, na Praça Azul. Apareçam.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ser pai às vezes é muito esquisito

Acabei de ter uma conversa ao jantar com a minha filha de nove anos sobre para que lado se deve inclinar a cabeça quando se dá um beijo na boca. Não sei se deva começar a ficar preocupado.


Agora põe isso na boca de um adulto

Uma amiga enviou-me este vídeo divertidíssimo via Facebook:


A ideia é muito simples e muito, muito divertida: um pai pegou nas palavras do seu filho e decidiu transpô-las para um contexto adulto. "Subitamente" - palavras do autor da ideia, Matthew Clarke - "a malevolência e a intimidação tornam-se muito claras". Ah, ah, ah, adoro. Este é o primeiro episódio, e vou ficar ansiosamente à espera de mais.

Time Out Miúdos 2013

Permitam-me um bocadinho de publicidade em causa própria, mas nós trabalhámos muito para que a Time Out Miúdos de 2013 ficasse bem catita e estou muito contente com o resultado final. A revista chegou hoje às bancas da Grande Lisboa e custa 3 euros. Para quem de vez em quando tem dúvidas sobre o que fazer com os miúdos ao fim-de-semana, o que por aqui não falta são boas sugestões. Nós próprios costumamos enfiar um exemplar no carro, que só mudamos de ano a ano, quando sai uma nova edição.


O voluntariado cura

Tratar alguém é muito mais do que administrar um medicamento ou efectuar um procedimento cirúrgico. Quantas pessoas já foram verdadeiramente tratadas por uma gargalhada libertadora ou por uma conversa com um bom ouvinte, mais preocupado em escutar do que em aconselhar? Saber ouvir um doente é importante tanto para uma correcta colheita da história clínica (e tantas vezes aquilo que os sinais clínicos parecem descrever está longe de ser o diagnóstico correcto) como para entender quais são as suas verdadeiras dores - dores essas que não são necessariamente orgânicas, mas que se não forem identificadas dificultam o tratamento do problema clínico e provocam angústia e sofrimento desnecessários.

É por isso que é tão importante que os hospitais estejam cheios de voluntários "doutores" e de doutores "voluntários". Os primeiros com generosidade e formação para aliviarem sofrimentos de várias ordens e os segundos com competência e entrega para tratarem doentes e não doenças. Mas nem sempre se percebe a importância disto. Poucas são as instituições hospitalares em Portugal que têm a capacidade de formar voluntários com excelência para que o seu voluntariado dê todos os frutos que poderia dar se fosse rentabilizado.

Ser capaz de voluntariar o seu tempo é um gesto altruísta maravilhoso mas poder fazê-lo da melhor forma, rentabilizando a sua eficácia, devia ser um direito do voluntário. Pena é que por cá não se exerça esse direito, o seu valor não seja identificado pelas instituições e estas vivam da generosidade de associações externas que se esforçam para se adaptarem o melhor possível às necessidades de cada instituição (e graças a Deus com tanto sucesso, em alguns casos).

Ontem cruzei-me com mais um daqueles mails em que se apela à participação através de download para recolher fundos para um determinado propósito. Era a vez de um videoclip, de que já tinha ouvido falar no Natal passado, filmado por um conjunto espanhol - com o curioso nome de Macaco - com doentes, pais, profissionais e voluntários do Hospital Materno-Infantil Sant Joan de Déu, em Barcelona, para alertar para a importância de angariar fundos para a investigação oncológica.

Fiquei curiosa e fui cuscar sobre o hospital, pois recentemente, por causa de um amiguinho corajoso que tem vencido muitas destas batalhas exactamente em Barcelona (mas noutro hospital), tenho-me apercebido da soberba organização do trabalho de voluntariado de alguns hospitais espanhóis. E lá encontrei, altamente valorizado, o voluntariado no hospital e a importância que é dada à intervenção dos palhaços doutores, dos musicoterapeutas ou do programa Diver (que se dedica a suavizar a experiência de hospitalização na criança e sua família através de jogos simbólicos), de que gosto especialmente.

Espero que as almas mais sensíveis não fiquem demasiado impressionadas com as imagens de crianças com doenças oncológicas, porque o objectivo é exactamente o contrário: através da alegria seguir o caminho até à cura, um dia de cada vez.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Pai de bancada

José Carlos Fernandes

Eis o meu texto na revista do CM de ontem:

Qualquer pai de família tem como verdade adquirida que no dia em que perde o poder sobre o futebol, perde o poder sobre tudo. Como por esta altura os caros leitores já vão sabendo, o talento que a minha mulher tem para me invadir a vida só é comparável à velocidade com que as divisões Panzer tomaram conta da Europa central por alturas do Blitzkrieg. Claro que as suas intenções são infinitamente melhores do que as do nacional-socialismo, mas a forma como foi dando cabo das minhas precárias linhas Maginot, obrigando-me a assinar sucessivos armistícios, é da mesma ordem de eficácia.

Resta-me o futebol – o último refúgio onde procuro resistir ao invasor e às suas intermináveis exigências domésticas. Ou seja, restam-me aquelas parcas horas semanais em que o Benfica joga à bola, e em que eu peço encarecidamente que me deixem ver o jogo sem ter 44 filhos (durante os 90 minutos cada um deles parece-me 11, mais as substituições) a azucrinar-me o miolo. E a verdade é que durante alguns anos consegui manter o meu quadrado (ou melhor, o meu rectângulo) mais ou menos protegido, e em tempos saudosos a excelentíssima esposa até teve a amabilidade de me oferecer um Red Pass, para eu ver in loco os jogos do Benfica.

Mas o nascimento da Rita veio aumentar a confusão caseira, e o futebol começou a ser alvo de pressão alta. Aos poucos, os 90 minutos semanais de silêncio e introspecção futebolística começaram a ser apenas respeitados em jogos com os três grandes, depois só com o Porto em caso de título nacional, e às tantas até já a final da Liga Europa estava a ser atacada pela minha pequena Rommel. Nesse dia havia umas iniciativas da semana da família nas Docas e ela queria que eu fosse para lá com as criancinhas: “Era só uma hora. Podíamos tirar uma foto da família e os miúdos iam adorar a largada de balões. Podemos jantar lá e ver a primeira parte do jogo...”, dizia ela. “Parece-me perfeito: vocês vão e eu fico em casa a ver a bola”, disse-lhe eu.

O resto do texto pode ser lido aqui.

domingo, 26 de maio de 2013

Diálogos em família #17

- Tomás, queres dar o leitinho à Rita?
- Quero! Quero!... Mas...(silêncio)
- O que é Tomás?
- As minhas maminhas não têm leite.


sábado, 25 de maio de 2013

Há um novo xerife na cidade

Hoje cheguei à sala e a Rita estava assim. Os índios, esses, tinham fugido todos.


Diálogos em família #16

- Come isso, Gui.
- Não quero!
- Tem de ser.
- Não quero!
- Ok, eu ajudo-te e como uma colher.
- Uma colher é muito pouco!
- Tendo em conta que isto já é a sobremesa e estou bem-disposto, fazemos assim: eu como metade.
- Está bem. Mas só se a minha metade for pequenina.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Sigam o link

A propósito de tudo o que tem andado a ser dito sobre as dificuldades do mundo, uma leitora deixou na caixa de comentários um link para um belíssimo texto da jornalista e escritora brasileira Eliana Brum. Não é todos os dias que se lêem coisas tão boas (e certamente não por aqui), portanto, aproveitem.

Porque é que o mundo é uma coisa complicada 2

A questão da pobreza e da riqueza e da atitude que assumimos perante a vida pode ser ilustrada com a tão badalada troca de argumentos entre o Martim e a Raquel no programa Prós & Contras de segunda-feira, que podem ver aqui:


A reposta do Martim - "quem ganha o salário mínimo pelo menos não está no desemprego" - fez rejubilar os blogues de direita. Percebe-se porquê. E a ter de escolher um dos campos - estás com o Martim, ou estás com a Raquel? - eu não teria dúvidas em dizer que estou com o Martim.

Mas isso não significa que a preocupação da Raquel não tenha razão de ser. Quando nós olhamos para estas fábricas no Bangladesh de roupa para alimentar a Europa e os Estados Unidos



que depois acabam nisto


é difícil que não exista um estremecimento de consciências. É inadmissível que as pessoas trabalhem nestas condições. Mas eis o que é tragicamente complexo: embora estas condições de trabalho sejam péssimas e inadmissíveis, elas permitiram ainda assim tirar milhões de pessoas da pobreza extrema em todo o mundo. A deslocalização de fábricas americanas ou alemãs para o terceiro mundo, em busca de maiores lucros - a ganância capitalista, como alguns lhe chamam -, possibilitou crescimentos homéricos em países como a China e a Índia. E - pior - é esse mesmo crescimento que hoje em dia está a afundar uma economia como a portuguesa, por exemplo, porque isto anda tudo ligado.

A verdade é que não é possível comprar vestidos tão giros na Zara, na H&M ou na Primark àqueles preços e depois esperar que eles sejam feitos no Vale do Ave pagando 1000 euros por mês a cada trabalhador. Ou seja, há sempre uma linha muito fina a separar o moralismo da hipocrisia. Da economia de mercado se pode dizer o mesmo que Churchill dizia da democracia: é o pior sistema com a excepção de todos os outros. O certo é que, com toda a injustiça que ele promove, a economia de mercado foi responsável, como nenhum outro sistema, pelo melhoramento da vida de biliões de pessoas.

É a chamada mão invisível que Adam Smith teorizou em A Riqueza das Nações: cada pessoa procurando com o máximo empenho os seus interesses individuais acaba por conduzir a uma melhoria geral das condições de vida das sociedades. Nesse sentido, é mais útil à economia o rico que coloca o seu dinheiro a circular à vista de todos (a acusação que me fizeram nos comentários deste blogue - embora, infelizmente, eu esteja muito longe de ser rico) do que o Tio Patinhas com que tenho ilustrado os meus textos, um avaro que adora mergulhar para dentro dos milhões que guarda no seu cofre-forte. Esse, sim, é um mau rico - porque é um rico inútil, que não utiliza o seu dinheiro para melhorar a vida dos outros, criando emprego.


Eu, por exemplo, odeio que me transportem as malas para o quarto de um hotel e nunca deixo as bandejas na mesa num centro comercial. Mas se todas as pessoas tivessem esta minha suposta humildade, o resultado é que alguns empregados de hotel e algumas empregadas de limpeza dos centros comerciais iriam para o olho da rua, porque não seriam necessários.

A grande questão, pois, está em conseguir o equilíbrio entre o empreendedorismo do Martim e a luta pela justiça da Raquel. Ambos são sentimentos altamente louváveis - mas vivem numa evidente tensão na forma como a nossa sociedade está organizada. O nosso eterno desafio, pois, como pessoas que procuram ser justas e contribuir para um mundo melhor, está em viver num estado de lucidez e empatia permanentes, tentando a cada momento destrinçar qual o melhor caminho para as nossas acções.

Isso prende-se, inclusivamente, com outras questões, que também são um desafio para qualquer pai: o que fazer quando alguém pede esmola na rua diante dos nossos filhos?

A minha opinião fica para um próximo post, que este, tal como o anterior, também já vai grande demais. Mas digam-me, por favor: o que é que vocês fazem quando isso acontece?

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Porque é que o mundo é uma coisa complicada 1

Devo dizer-vos que fiquei impressionado com a quantidade de comentários ao meu post burguês, mas suponho que quando raspamos um bocadinho o verniz social tudo se resume às velhas dicotomias medievais, porque elas são essenciais para a nossa limitada cabecinha funcionar: bom/mau, feio/bonito, verdadeiro/falso, e se calhar em tempos de economês suponho que lhe possamos acrescentar o rico/pobre.

Mas se trouxe esse assunto para aqui é porque eu também sou sensível a ele, e hoje em dia não há acusação que faça mais recorrentemente à Carolina do que ela estar a transformar-se numa menina queque, em que acha que tudo lhe cai do céu. Eu e a Teresa somos ambos filhos da típica classe média de funcionários públicos do interior de Portugal, o que significa que nunca nos faltou nada, mas também nunca tivemos nada em excesso, julgo eu. Aquilo que de mais precioso os nossos pais no deram foi a nossa educação, e felizmente eu e a Teresa saímo-nos bem. Somando isso à melhoria geral do nível de vida até à crise, isso significa que os nossos filhos têm hoje acesso a milhentas coisas que nós nunca tivemos.

Se eles entram numa livraria compram um livro. Se eles vão comigo ao quiosque comprar jornais recebem três ou quatro carteiras de cromos. Se eu passo pelo El Corte Inglés para comprar uma prenda para o aniversário de um amiguinho e vejo uma coisa de que eles também vão gostar, sou capaz de trazer uma coisinha para cada um e inventar uma razão qualquer para lhes oferecer (porque estiveram em casa com febre, porque tiveram um Satisfaz Muito Bem num teste, sei lá eu).

Isso significa que aquilo que para mim era altamente negociado com os meus pais - por exemplo, uma prenda fora da época de Natal ou de um dia de anos -, para eles é um dado adquirido. Na minha vida, só me lembro de ter completado uma caderneta de cromos (da Abelha Maia) - eles já completaram 15 ou 20, e nem sequer parecem ligar-lhes por aí além. Ou seja, tudo é mais fácil para eles, embora, paradoxalmente, isso tenha um enorme vantagem: são mais desligados das coisas do que eu era. Como tinha muito menos quando era pequeno, para mim emprestar um livro a um miúdo ou um brinquedo era assim como arrancarem-me as unhas a sangue frio. Ainda hoje me custa emprestar um livro ou um disco de que gosto muito a alguém (também porque nesta terra as pessoas, em geral, não têm o menor cuidado em devolver as coisas dos outros). As crianças cá de casa não, felizmente - estendem as coisas e está a andar.

Dito isto, assusta-me muito a facilidade com que os meus filhos se arrogam no direito de pedir isto e aquilo. E tenho medo sobretudo que a Carolina, que é mais velha e tem uma certa tendência para o show-off e para mandar nos outros, comece a ter excesso de orgulho naquilo que tem e na família mais ou menos conhecida. Se um dia eu descubro que ela usa isso como argumento para se impor socialmente, estaria capaz de a pendurar do estendal pelos cabelos. Nesse sentido, ela precisa de começar rapidamente a compreender o que são as dificuldades, a pobreza e a solidão - não no sentido de saber que existem, mas no sentido de perceber realmente o que são - para começar a dar valor àquilo que tem. Chama-se a isso acção social, e acho extremamente importante que ela o faça.

Em relação a este blogue e à crítica clássica da exibição da riqueza em tempos de pobreza, também queria acrescentar mais um par de coisas, mas este post já vai longo, e portanto, um novo post há-de surgir sobre esse assunto, entre hoje à noite e amanhã. Mas até lá espero que os leitores mais ou menos burgueses deste blogue digam coisas.


terça-feira, 21 de maio de 2013

Um grande susto

No sábado passado vinha a sair da natação descontraidamente com os três miúdos mais velhos quando o Gui decide passar sozinho a rua de São Bento. É certo que não vinha nenhum carro e que ele até olhou, mas depois de fazer aquilo fiquei com vontade de lhe arrancar a cabeça, o que era capaz de ser mais prejudicial à sua saúde do que se tivesse sido atropelado. Eu fiquei debaixo de um carro quando tinha mais ou menos a idade dele, e estou farto de contar histórias domésticas sobre a responsabilidade de andar na rua e saber parar no passeio quando a estrada se aproxima, atravessando apenas com o ok dos pais.

Quando se tem quatro filhos, não existem mãos que cheguem para agarrar todos eles, mais o material que é preciso transportar quando se sai de casa. Assim, o único remédio é começar a treiná-los desde pequeninos para caminharem de forma independente mas responsável. Como por esta altura vocês já devem saber, eu sou muito crítico do excesso de protecção paternal, pois vivemos numa sociedade em que mal os perdemos de vista 10 segundos (porque eles já viraram a esquina e nós ainda não) achamos que estão inevitavelmente fadados a encontrarem-se com Jack, o Estripador. E depois o que acontece, como um dia disse Daniel Sampaio, é que eles passam quase directamente de não poderem ir sozinhos para a escola para saírem à noite até às quatro da manhã.

Nesse sentido, dar-lhes independência é uma luta contra nós próprios: claro que eu preferia tê-los sempre pela trela quando andam na rua, mas acho genuinamente que não o devo fazer - para espanto de alguns pais que me encontram a caminho da escola e me devem achar demasiado despreocupado. Não sou, na verdade, mas tento disfarçar o melhor que posso, porque não há nada mais bonito do que um filho independente e bem comportado. Mas claro, depois acontecem coisas destas e nós reavaliamos tudo outra vez.

Desde sábado, o Gui está de castigo e vai comigo para o infantário pela mão. Eu expliquei-lhe muito bem porquê, e agora pergunta-me todos os dias: "quando é que voltas a confiar em mim?" Como costuma acontecer com todos os traídos, acho que ainda vai demorar bastante.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Filhos e socialismo

Já agora, para quem misturava a política com este blogue, aqui fica um texto provocador publicado no jornal i há pouco mais de uma semana pela Inês Teotónio Pereira, chamado "os meus filhos são socialistas". É político. Mas tem imensa graça. Por isso partilho-o aqui:

Não sei se são só os meus filhos que são socialistas ou se são todas as crianças que sofrem do mesmo mal. Mas tenho a certeza do que falo em relação aos meus. E nada disto é deformação educacional – eles têm sido insistentemente educados no sentido inverso. Mas a natureza das criaturas resiste à benéfica influência paternal como a aldeia do Astérix resistiu culturalmente aos romanos. Os garotos são estóicos e defendem com resistência a bandeira marxista sem fazerem ideia de quem é o senhor.

Ora o primeiro sintoma desta deformação ideológica tem que ver com os direitos. Os meus filhos só têm direitos. Direitos materiais, emocionais, futuros, ambíguos e todos eles adquiridos. É tudo, absolutamente tudo, adquirido. Ele dão como adquirido o divertimento, as férias, a boleia para a escola, a escola, os ténis novos, o computador, a roupinha lavada, a televisão e até eu. Deveres, não têm nenhum. Quanto muito lavam um prato por dia e puxam o edredão da cama para cima, pouco mais. Vivem literalmente de mão estendida sem qualquer vergonha ou humildade. Na cabecinha socialista deles não existe o conceito de bem comum, só o bem deles. Muito, muito deles.

O segundo sintoma tem que ver com o aparecimento desses direitos. Como aparecem esses direitos. Não sabem. Sabem que basta abrirem a torneira que a água vem quente, que dentro do frigorífico está invariavelmente leite fresquinho, que os livros da escola aparecem forradinhos todos os anos, que o carro tem sempre gasolina e que o dinheiro nasce na parede onde estão as máquinas de multibanco. A única diferença entre eles e os socialistas com cartão de militante é que, justiça seja feita, estes últimos já não acreditam na parede – são os bancos que imprimem dinheiro e pronto, ele nunca falta. 

Outro sintoma alarmante é a visão de futuro. O futuro para os meus filhos é qualquer coisa que se vai passar logo à noite, o mais tardar. Eles não vão mais longe do que isto. Na sua cabecinha não há planeamento, só gastamento, só o imediato. Se há, come-se, gasta-se, esgota-se, e depois logo se vê. Poupar não é com eles. Um saco de gomas ou uma caixa de chocolates deixada no meio da sala da minha casa tem o mesmo destino que um crédito de milhões endereçado ao Largo do Rato: acaba tudo no esgoto. E não foi ninguém...

O quarto tique socialista das minhas crianças é estarem convictas de que nada depende delas. Como são só crianças, acham que nada do que fazem tem importância ou consequências. Ora esta visão do mundo e da vida faz com que os meus filhos achem que podem fazer todo o tipo de asneiras que alguém irá depois apanhar os cacos. Eles ficam de castigo é certo (mais ou mesmo as mesma coisa que perder eleições), mas quem apanha os cacos sou eu. Os meus filhos nasceram desresponsabilizados. A responsabilidade é sempre de outro qualquer: o outro que paga, o outro que assina, o outro que limpa. No caso dos meus filhos o outro sou eu, no caso dos socialistas encartados o outro é o governo seguinte.

Por fim, o último mas não menos aterrorizador sintoma muito socialista dos meus filhos é a inveja: eles não podem ver nada que já querem. Acham que têm de ter tudo o que o do lado tem quer mereçam quer não. São autênticos novos-ricos sem cheta. Acham que todos temos de ter o mesmo e se não dá para repartir ninguém tem. Ou comem todos ou não come nenhum. Senão vão à luta. Eu não posso dar mais dinheiro a um do que a outro ou tenho o mesmo destino que Nicolau II. Mesmo que um ajude mais que outro e tenha melhores notas, a “cultura democrática” em minha casa não permite essa diferenciação. Os meus filhos chamam a esta inveja disfarçada, justiça, os socialistas deram-lhe o nome de justiça social.

A minha sorte é que os meus filhos crescem. Já os socialistas são crianças a vida inteira.