quarta-feira, 13 de março de 2013

Comentários ao Dilema dos Amantes

Os últimos posts sobre o "Dilema dos Amantes" (aqui e aqui) deram origem a duas contestações que não merecem ficar perdidas nas caixas de comentários.

Diz a Marta Dinis:

Tenho estado a ler atentamente os posts sobre este tema e, na verdade, não posso discordar mais. As pessoas devem ficar juntas porque é isso que querem e não apenas porque assumiram um compromisso. O problema de muitos relacionamentos é precisamente esse: centram-se no compromisso e nos planos para o futuro.
Olho à minha volta e, do alto dos meus 35 anos, vejo amigos que continuam (bem) casados, amigos que se divorciaram e recomeçaram uma nova vida (sozinhos ou acompanhados); alguns que continuam solteiros (por opção) e, felizmente, apenas dois ou três que vivem casamentos ou relações profundamente desgastadas.E o que esperam? Esperam comodamente que alguma coisa os vá arrancar dali. Não conseguem tomar uma atitude e estão à espera que alguém os salve (que tanto pode ser um novo amor como a tomada da decisão final pelo outro cônjuge). 

Isto é, a meu ver, o progresso. Não vale a pena dizer que as pessoas não lutam, não se dão ao trabalho, não fazem sacrifícios, não pensam nos filhos (acho, aliás, este discurso uma coisa de há dois séculos). Hoje em dia, as pessoas, os casais, são apenas racionais: estão juntos enquanto isso os faz felizes. E adiar o fim acaba sempre por ser pior para toda a gente: para os próprios, para os filhos e para a família.

Diz a Teresa Pinho:

O João (ou eu, ou tantas pessoas que conheço, ou o Samuel Úria, ou as pessoas que aqui no blogue deixam comentários nesse sentido) conseguem pensar em mais do que o estado de paixão permanente. Acha mesmo que somos uma minoria? Olhando para os casais que me rodeiam vejo as pessoas a negociar e a fazer um esforço para que tudo resulte bem para ambos como não se fazia na geração dos meus avós nem dos meus pais.(E tenho 30 anos.)

Diz - como diz muita gente, aliás, - que as pessoas se separam a velocidades estonteantes, sempre à procura de um Mr. Right (e de uma Ms. Right, acrescento eu) que nunca aparece. Mas é mesmo a isso que o João assiste nas pessoas que o rodeiam? É que a mim isso parece-me mais o "Sex and the City" do que a realidade que observo à minha volta.

E como bónus a Teresa deixa bibliografia:

Aboim, Sofia (2011). Vidas conjugais: do institucionalismo ao elogio da relação. In Almeida, Ana Nunes (Eds.), História da vida privada em Portugal: os nossos dias (pp. 80-111). Lisboa: Círculo de Leitores / Temas e debates.


Eu a esta hora da madrugada já estou demasiado acabado para responder a comentários com bibliografia. Mas o tema interessa-me muito e vou certamente voltar a ele. Como diria este blogue se ele fosse uma telenovela brasileira: "me aguardem..."

terça-feira, 12 de março de 2013

Ufa, ufa, ufa, ufa

Preciso de dias com 48 horas. Alguém tem para venda?


Tão jovem e já a roubar

Não me perguntem porquê, mas esta passou a ser a actividade favorita da Rita quando está ao colo da Teresa. Aqui foi apanhada em flagrante delito. Reparem como já está a desenvolver o olhar sim-eu-sei-que-estou-a-fazer-asneira-mas-faço-na-mesma. Começa cedo, a menina.


Dilema dos amantes III

Está fora de moda, cara Teresa, pela simples razão de que somos cada vez menos sensíveis ao adiamento das gratificações imediatas. Há um lado bom nisso, na medida em que durante séculos e séculos as pessoas viviam enfiadas em relações nas quais não acreditavam, e onde a traição masculina era aceite pacificamente. Que hoje em dia tal seja impensável é obviamente um ganho. Mas, por outro lado, exige-se agora que o amor seja uma paixão permanente, o que é de todo impossível. Resultado: as pessoas separam-se a velocidades estonteantes, sempre à procura de um Mr. Right que nunca aparece, ou que aparece apenas durante curtíssimos períodos de tempo. Eu diria que, nesta questão, a virtude está mais ou menos no meio: nem deixarmo-nos arrastar em relações sem futuro, nem levar o "carpe diem" a um extremo tal que parece que a única coisa que importa é o presente.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Ups (o final feliz)

Esperem, acho que encontrei o comentário num outro mail meu. Era este:

Haverá certamente muita gente que não suspende os próprios impulsos como há também muita gente que os suspende, como sempre houve. E acaba por não dizer, mais uma vez, porque acha que está fora de moda...

Teresa Pinho

Tentarei voltar ao tema ainda hoje.

Ups

Este é um post só para a Teresa Pinho (que penso ter sido a leitora que esteve na origem do penúltimo post): acabei de apagar sem querer o seu comentário, e nesta coisa dos blogues não há lixo onde ir recuperar textos. Importa-se de o reescrever outra vez? Era importante. Peço imensa desculpa.

Estão todos convidados

Dilema dos amantes II

Neste post eu citava um excerto do último livro do Afonso Cruz ("Se ele a enganar, é porque não tem carácter, e não o quero. Se não a enganar, quero-o, mas jamais o terei.") e acrescentava que aquelas duas frases compunham um magnífico paradoxo conservador, infelizmente muito fora de uso. Nos comentários a esse post, um leitor (ou uma leitora, não faço ideia, porque o comentário é anónimo) perguntava: "JMT, porque acha que é tão fora de uso?" É uma pergunta que merece resposta.

E posso começar por responder com um outro post que escrevi, sobre uma canção de Samuel Úria que anda a rodar nas rádios. Chama-se "Eu Seguro" e é um maravilhoso dueto com Márcia sobre o mais improvável dos temas pop: o amor monogâmico. Eu tive oportunidade de entrevistar o Samuel Úria para a Time Out e fiz-lhe uma pergunta especificamente sobre esse tema. E ele disse isto: "O amor é muitas vezes uma coisa que se quer sustentar, e não pelas formas mais românticas e idílicas. O casamento é um compromisso. E o compromisso é um amor duro que merece ser cantado."

Infelizmente, esta última e extraordinária frase do Úria - "o compromisso é um amor duro que merece ser cantado" - é assim como o excerto do Afonso Cruz: está tristemente fora de moda. Tão fora de moda que parece só fazer sentido no âmbito da fé. Úria é baptista, e a ideia da indissolubilidade do casamento está hoje em dia confinada ao quintal das religiões.

Eu obviamente não acho que as pessoas infelizes devam arrastar casamentos pela vida fora. Mas acho que muitas vezes falta perspectiva e capacidade de resistência. As frases de Samuel Úria e Afonso Cruz encontram-se nisto: na suspensão de um impulso em nome de um bem superior. É isto que está fora de moda.

Claro que eu escrevo estas palavras e já me estou a sentir padreco. Provavelmente é inevitável. Ainda por cima, a minha complexa relação com a Igreja Católica levou-me a desenvolver uma profunda alergia à palavra "sacrifício". Mas sou sensível a um conceito que atravessa a natureza e é o coração da fábula da formiga e da cigarra: a capacidade de adiar uma gratificação imediata.

Curiosamente, educar uma criança é estar o tempo todo a ensinar-lhe isso: não fazer o que lhe apetece a cada momento, em nome de uma série de princípios superiores. Mas quando chegamos a adultos parece que nos libertámos para sempre do jugo dos deveres, pelo menos no que às matérias amorosas diz respeito. Se uma relação não está sempre bem parece que não vale nada. Se eu me sinto atraído por uma colega de trabalho então é porque o meu amor à minha mulher já não é o mesmo de antigamente. Erro, erro, erro. O amor às vezes é duro. E é essa dificuldade em compreender o "amor duro", como Úria lhe chama, que dá cabo de imensas relações.

E o que entendo eu por "amor duro"? É precisamente aquilo que está escrito na primeira estrofe de "Eu Seguro":

Quando o tempo for remendo,
Cada passo um poço fundo
E esta cama em que dormimos
For muralha em que acordamos,
Eu seguro
E o meu braço estende a mão que embala o muro.

A paixão é só rosas. Amor é o que suporta os espinhos. Sabem qual é o último verso da canção?

Eu seguro,
Que o presente é uma semente do futuro.

E é mesmo. Cá vai outra vez:


domingo, 10 de março de 2013

Angry Birds nos joelhos

Eis o meu texto de hoje na revista do CM:

Há uns dias a Teresa pediu-me para ir falar com o Tomás:

- “Ele não quer vestir as calças do fato de treino. Acho que é por causa das joelheiras dos Angry Birds que lhe pusemos. Foi ele que as escolheu, mas agora diz que não as quer usar. Deve estar com vergonha.”

O Tomás é um futebolista destemido que rasga um par de calças de fato de treino a cada 15 dias, mas aquilo que o preocupava naquele momento não era os gastos desproporcionados na costureira. Ele estava (outra vez) envergonhado. Cabeça baixa, olhos no chão, respostas monossilábicas. Fui eu que tive de completar as suas frases, extraindo-lhe a confissão a saca-rolhas. Sim, os amigos do futebol tinham começado a gozar com ele por ter uma personagem dos Angry Birds em cada joelho. Sim, ele sabia que tinha sido ele a escolher as joelheiras. Mas não, não queria ser gozado outra vez. E já que estava com a mão na massa quanto a queixas de guarda-roupa, aproveitou para criticar alguma da sua roupa interior com ursinhos, que também era alvo de comentários jocosos no recreio da escola.

Se a Teresa estava à espera que eu pusesse a minha voz de mau e começasse a pregar a favor da acção afirmativa no recinto escolar, enfiando lá pelo meio uma nota de rodapé sobre a necessidade de impor a própria individualidade sem receio do olhar dos outros, então ela escolheu o pior gajo do mundo para o fazer. Não é que eu não acredite nisso – acredito, gostava que fosse assim, e até ensaiei um rascunho desse discurso. Expliquei ao Tomás que os Angry Birds eram um jogo de gente grande, que não tinha razões para ter vergonha. Mas ainda o intróito ia a meio e já eu me estava a sentir brutalmente hipócrita. E hipócrita porquê? Hipócrita porque o Tomás é demasiado parecido comigo e eu passei por tudo aquilo que ele está a passar agora, com a diferença de que na altura os Angry Birds ainda não tinham sido inventados. Tenho vivíssimo na minha memória um dia de Inverno em que levei para a escola um guarda-chuva com vários padrões de cinza – não imaginam o que eu fui gozado só pelo facto de o guarda-chuva não ser todo preto. Nunca mais me atrevi a pegar-lhe. As crianças são muito cruéis e há uma altura certa para nos libertarmos do olhar dos outros. Essa altura, para o Tomás, ainda não chegou. A Teresa estendeu-me umas novas calças de fato de treino, e eu vesti-lhas, tão contente quanto ele.


A ilustração, como sempre, é do José Carlos Fernandes, que desta vez apostou numa versão imberbe da minha pessoa.


A primeira audição da Carolina

E depois de seis meses a aprender piano, a primeira prova à frente de muitas pessoas.

O programa de sala:


A actuação:


E a foto para a posteridade:


sábado, 9 de março de 2013

Matrix num minuto

Para quem, como eu, adora o primeiro Matrix e o conhece de trás para a frente, isto é absolutamente genial: o filme condensado numa animação de um minuto.


E também há para o primeiro Regresso ao Futuro:


A responsabilidade por estas maravilhas é do 1A4 Studio. Mais coisas aqui.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Direito de resposta #15

O QUÊ?!? Só a partir do Gui é que eu passei a lavar os dentes aos miúdos?

A mamã policía

A vida de uma mamã médica não é fácil. Parece que, para todos os fenómenos que ocorrem no universo do corpo humano, ela está obrigada a conhecer o mecanismo fisiológico que os desencadeiam no exacto momento em que se manifestam.

Ora, para tudo, é preciso paciência.

Há uns tempos, o João resolveu queixar-se aqui de que a mamã cá de casa é uma mariquinhas e que está sempre a virar o agregado familiar do avesso. O que ele queria dizer é que eu passo a vida a policiar os sintomas dos miúdos, marido incluído, para não tomar decisões precipitadas sobre se um sintoma é ou não importante, e evitar assim enfiar-lhes com medicamentos sempre que um começa com febre e outro com dores de garganta.

Ainda na semana passada comentava com uma colega como nos sentimos pressionados pela família quando os miúdos ficam doentes. No caso dela os sogros passam a vida a queixar-se do pobre neto ter uma médica em casa e quase nunca tomar antibiótico quando tem febre. No meu caso tenho um marido que passa a vida a perguntar-me "então pá? O que é que ele tem? Ainda não vai amanhã à escola?", por manifesta dificuldade em compreender que se os miúdos têm alguma virose a abancar no corpinho então não há necessidade de lhes despejar antibiótico pela goela.

Nas últimas semanas temos tido uma fartura de maleitas cá por casa. Entre antipiréticos e anti-inflamatórios, soros fisiológicos, expectorantes, broncodilatadores, máquinas de aerossóis, cinesiterapia e (um) antibiótico fizemos muito pela riqueza das farmacêuticas. Mas o uso de cada um desses instrumentos tem de ser devidamente ponderado (excepto do soro fisiológico, que nunca é demais) e é preciso esperar para não enfiar com tudo ao mesmo tempo em cada um deles. A mãe é médica. Mas não é bruxa.


Jedi's Mendonça Tavares combatem a placa dentária

Até ao segundo filho eu ainda conseguia controlar a lavagem dos dentes dos miúdos. A partir do Gui passei a pasta (a dentífrica também) ao papá da casa, mas acabam por ser muitos dentes para apenas duas mãos. Resultado: se não estão a ser vigiados, os miúdos despacham a escovadela em 10 segundos e metade do prato de comida fica agarrado aos pré-molares.

Mas tudo mudou desde que descobri numa farmácia perto de casa umas escovas de dentes inspiradas na saga Star Wars.



aqui expliquei que cá em casa somos grandes fãs da série. Ora, a ideia de fazer umas escovas-sabres de luz que se mantêm acesas durante um minuto (metade do tempo recomendado para uma escovagem perfeita, mas ainda assim o aceitável para miúdos espevitados) faz imenso pela saúde oral das crianças. Agora é ver a Carolina-Luke Skywalker, o Tomás-Darth Vader e o Gui-Yoda (respectivamente, sabres de luz azul, vermelho e verde) entretidos a escovar os dentes em grande estilo, de boca arregalada para o espelho da casa-de-banho. E nem lhes custa nada dobrar o tempo de escovagem, só para o sabre poder brilhar mais um bocadinho...


As escovas são da GUM  e existem três versões diferentes: as manuais (escova convencional com o desenho de uma das personagens, que custam cerca de 5€), as escovas-sabres de luz (com luz LED vermelha, verde ou azul que ilumina em flash toda a escova, bem ao estilo Star Wars, com pilhas incluídas, por cerca de 7€) e as escovas a pilhas (acção oscilo-rotativa clássica com pilhas incluídas, por cerca de 16€). O que não se compreende é que as escovas a pilhas (muito mais eficazes a eliminar a placa bacteriana e a evitar as gengivites) não tenham recargas para poder substituir as cerdas de três em três meses, como é recomendado. É que pagar 16 euros por três meses de escovagem parece um negócio à Jabba the Hut...

quinta-feira, 7 de março de 2013