segunda-feira, 17 de junho de 2013

Pare, escute e olhe

Ilustração de José Carlos Fernandes

Eis o meu texto de ontem na revista do CM:

Quando eu tinha quase quatro anos de idade fui atropelado por um automóvel em Portalegre. Não me aconteceu nada de especial: a rua onde vivíamos era estreita e os carros circulavam devagar. Mas foi suficientemente impressionante para o acontecimento passar a fazer parte da mitologia familiar. Eu não me lembro de nada, nem de pneus a chiar, nem da pancada no metal, nem do corpo no asfalto, mas recordo-me de escutar, ao longo da infância, dezenas de “queres ser outra vez atropelado?” assim que me aproximava de forma mais desabrida de uma estrada.

O medo não pegou, contudo. Evito cultivar traumas de infância e resisto a ser consumido pelo receio de que alguma coisa aconteça aos meus filhos. Se pensarmos demasiado nisso, qualquer coisa pode acontecer em qualquer altura, até rãs a chover dos céus, como no filme Magnólia. Isso é paralisante. Sabendo nós à partida que o pior está garantido – “como moscas para meninos travessos, assim somos nós para os deuses”, escreveu Shakespeare no Rei Lear –, o mais sensato é viver esperando pelo melhor. E esse melhor não se consegue alcançar tentando obcecadamente proteger os filhos de todos os perigos, mas sim ensinando-os a reconhecê-los e a enfrentá-los.

Não tenho grandes certezas sobre educação, um mundo vastíssimo e complexo que a nossa inteligência está longe de abarcar. Mas estou convencido de que se conseguirmos incutir nos nossos filhos confiança, responsabilidade e independência, boa parte do nosso trabalho estará feito. Eu esforço-me por isso, e sempre tive muito orgulho na forma como os mais pequenos andam sozinhos na rua sabendo perfeitamente parar e esperar pelos pais quando chegam ao pé de uma estrada.

Isto até ao dia – aconteceu há duas semanas – em que qualquer coisa passa pela cabeça do Gui e ele decide atravessar sozinho a rua de São Bento. Não lhe aconteceu nada, era sábado e naquela altura não estavam a passar carros, mas acontecimentos como este, completamente imprevisíveis, são suficientes para abalar a nossa confiança e nos obrigar a rever tudo outra vez. A verdade é que a espécie humana não está programada para aceitar que um erro possa acontecer sem que nada esteja a ser mal feito. Por isso, o Gui passou a estar sob prisão rodoviária preventiva – agora anda na rua de mão dada. E a minha brilhante teoria? Continua óptima. Só está a recuperar do susto.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Quem foi o gajo que inventou os bebés?

Esta menina encantadora (que se não estiver de vestido passa perfeitamente por menino, como se pode ver pela foto) acabou de me dar a pior noite desde que nasceu, há nove meses e meio. Se a energia desta casa fosse alimentada a gritos, como no Monstros e Companhia, eu não precisaria de pagar electricidade durante um ano. Definitivamente, o meu amor aos bebés é do tamanho do bosão de Higgs. Cresce, miúda, cresce. E despacha-te, se faz favor.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Separados à nascença




Tal pai... tal filho

Há uns tempos, o meu excelentíssimo esposo gozou aqui comigo por uma certa manhã, em que saí de casa em passo de corrida com os três filhos em idade escolar atrás de mim, a porta de casa ter ficado aberta e ele só ter dado conta disso depois de ter tomado calmamente o seu pequeno-almoço e assistido às notícias da manhã. O esposo tinha toda a razão, mas havia um bom motivo para nos termos esquecido da porta aberta - pensávamos (ingenuamente) que atrás de nós ficaria um fidelíssimo pai a despedir-se da família.

Mas esquecimento com esquecimento se paga.

No domingo, quando íamos a caminho de Portalegre, precisámos de parar numa estação de serviço para meter gasóleo, tarefa que ficou a cargo do senhor pai. Quando já estava tudo pronto para partir, eu tive de sair do carro para procurar a chucha da Rita, que andava perdida no banco de trás, e eis senão quando... isto:


Isso mesmo. O homem da casa tinha deixado o depósito aberto, com a tampa meticulosamente encavalitada no tampão. Giro, não?

Sim, giro, mas não inédito. Há uns meses, íamos nós sossegadamente na autoestrada quando reparámos que todos os carros que passavam por nós desatavam a apitar, apontar e fazer sinais de luzes. Porquê? Pois é: vínhamos alegremente a despejar gasóleo pela A1.

E suspeito que não ficaremos por aqui. Depois de o papá se ter entretido a ensinar o Gui a abrir a janelinha das traseiras do carro (tem estado um calor insuportável e ele não resistiu...), agora não há dia em que o Gui - como seria de esperar - não abra a janela. Já fechá-la, é bastante mais complicado. E o papá também não se lembra nunca que aquele bocado de vidro não tem botão para subir e para descer. Portanto, se alguém quiser assaltar um carro nas nossas redondezas, é só procurar o monovolume da família Star Wars...



terça-feira, 11 de junho de 2013

OK, isto também já é amor a mais

A história é tão incrível que nem sei por onde começar. Don Featherstone é um americano conhecido pela criação, em 1957, dos flamingos de plástico cor-de-rosa, que se transformaram num dos elementos de decoração mais famosos dos jardins americanos após o grande John Waters ter lançado o clássico Pink Flamingos, em 1972. Aqui está Don junto à sua criação:



Mas como se isso não fosse já suficientemente bom, eis que descubro que Don é casado com Nancy e que eles se vestem de igual há... 35 anos. Diria que se calhar é um bocadinho de amor a mais. A história está toda num artigo do Guardian, contada na primeira pessoa por Nancy Featherstone, aqui. É uma maravilha. Mas, sobretudo, o que vale milhões são estas fotos:






Vocês imaginam a trabalheira que isto deve dar?

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Muito obrigadinho! (Versão longa)

Ilustração de José Carlos Fernandes

Eis o meu texto de ontem na revista do CM, sobre um tema que até já abordei aqui num post:

Há certas expressões que se barricam nas cordas vocais dos miúdos para a partir daí atentarem diariamente contra a moleirinha dos progenitores. No caso do Gui, a sua última arma de repetição linguística é o “muito obrigadinho”. Não faço ideia onde é que ele descobriu o “muito obrigadinho”, mas sei que um dia chegou a casa com ele e foi amor à primeira vista. Estão a ver aqueles pares de ténis que os miúdos adoram e se recusam a descalçar? Assim aconteceu com o “muito obrigadinho”: afeiçoou-se de tal maneira que o repete 27 vezes ao dia.

Convém notar que “muito obrigadinho” não tem nada a ver com “muito obrigado”. Não é um “muito obrigado” pequenino, não é um “muito obrigado” carinhoso, não é sequer um “muito obrigado” envergonhado, até porque se assim fosse não ia estar aqui a chatear o leitor com este tema – estaria, antes, a celebrar a superior educação do meu filho número 3. Ora, “muito obrigadinho” está para a boa educação como “vai dar banho ao cão” está para a higiene canina. De facto, trata-se apenas de uma manifestação de sarcasmo, actividade que o meu filho Gui domina surpreendentemente bem, apesar de ter apenas cinco anos de idade.

Como qualquer pessoa normal (embora de forma menos voluntariosa do que uma pessoa normal), o Gui usa a expressão "muito obrigado" no sentido tradicional do termo, ou seja, para agradecer qualquer coisa que alguém fez por ele. Já a expressão "muito obrigadinho" é usada para desagradecer não terem feito por ele qualquer coisa que ele queria. E garanto-vos que todos os dias o Gui quer que as pessoas façam imensas coisas por ele – daí a sua irritante transformação em metralhadora de “obrigadinhos”, para infelicidade dos seus pais e irmãos.

Mas há mais. É que, ao mesmo tempo que debita “obrigadinhos”, ele ultrapassa o estrito domínio da oralidade, entrando no campo da expressão corporal. Cada “muito obrigadinho” é invariavelmente acompanhado por alguns espasmos do tronco e um q.b. de choraminguice, assim à laia de prolegómenos para uma birra futura. Ora, todo este conjunto semiótico tem demasiada pregnância para o meu gosto, e às tantas estou a perseguir a máquina de “muito obrigadinhos” pelo corredor, com a paciência muito diminuída. Eu já sabia que os diminutivos eram uma praga da língua portuguesa, mas não estava à espera de ter um filho como hospedeiro. Muito obrigadinho, ó Gui.

domingo, 9 de junho de 2013

O presente e o futuro

É sempre fascinante esta coisa de os miúdos, até aí por volta dos cinco, seis anos, não perceberem nada do que é isso do tempo. Misturam o ontem com o amanhã, o conceito "daqui a oito dias" é-lhes incompreensível, e nunca sabem, basicamente, às quantas andam. Ontem fomos dar um beijinho ao aeroporto à Memi e à Zé, que iam passar o fim-de-semana prolongado a Londres com o coro de Proença-a-Nova. Conversa do Gui:

- Vocês vão para Londres para sempre?
- Não, Gui, só lá vamos estar três dias.
- E podemos ir visitar-vos?

Que maravilha. Quando não há passado nem futuro, não admira que eles vivam o presente tão intensamente.

Sozinhos na rua

Ora aqui está uma foto tão rara quanto um quadro do Crivelli, referência particularmente apropriada já que ela foi tirada nos jardins do Museu de Arte Antiga, durante o Santo António à la Time Out, sexta-feira à noite. Reparem bem: eu e a minha excelentíssima esposa sozinhos na rua, a divertirmo-nos entre as 21.00 e as 01.00 sem putos ranhosos à volta! E a dançarmos música pimba agarradinhos! Iupiiii!!! Reparem no meu ar de genuína felicidade. Esta também é a parte boa de ter quatro filhos: cada saída à noite a dois é como  uma garrafa de água no meio da Sahara. Tão bom.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Oferece-se Engenheiro Aeronáutico

Como nenhum de nós conhece o futuro e o mundo não está para brincadeiras, tento todos os dias identificar quais os talentos de cada um dos meus filhos, para melhor os poder desenvolver. Assim, quando forem grandes, talvez eles venham a singrar na vida e a pagar a velhice ao seu querido papá. Nesse sentido, queria aqui anunciar em primeira mão que tenho um engenheiro aeronáutico cá em casa, chamado Guilherme Mendonça Tavares. Eis a prova:


Eu sei que à primeira vista isto pode parecer apenas um garrafão de cinco litros de água um bocado amolgado. Mas as aparências iludem. Na verdade, segundo o Gui me explicou, isto é um fantástico avião, em plena pista de aterragem.


Em cima temos o avião visto de baixo, e em baixo temos o avião visto de cima.


Posso garantir que esta extraordinária obra de engenharia aeronáutica foi exclusivamente criada pelo Gui, sem quaisquer ajudas dos pais, num momento de notável inspiração. Mais do que ser criada - ela foi planeada com grande antecipação, e no mais absoluto segredo. Características essenciais para quem for trabalhar para uma empresa de ponta, cheia de contratos de confidencialidade.

Eis o processo de construção. Primeiro, o Gui não me deixou atirar para o lixo duas cartas velhas, detectando nelas um fantástico potencial aerodinâmico. Depois, apropriou-se à sorrelfa do tubo de cola, ultrapassando corajosamente as inúmeras restrições caseiras à sua utilização por menores de 12 anos. E finalmente, surgiu com este magnífico objecto, simultaneamente um prodígio tecnológico e uma obra-prima do design contemporâneo.


Os interessados em contratar imediatamente o jovem prodígio devem enviar um mail para paisdequatro@gmail.com. Por motivos patrióticos, o Gui dará prioridade a ofertas da TAP (pelo menos enquanto não for privatizada). Obrigado.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Tira isso da boca, pá

Isto é oficialmente uma das coisas mais estranhas de todos os tempos: a lollyphile, uma empresa americana dedicado ao fabrico de chupas-chupas com os sabores mais bizarros, acaba de lançar no mercado um chupa-chupa com sabor a... leite materno. Juro. Breast Milk Lollipops. Eles garantem que não andaram a perseguir mulheres à saída das maternidades, e que o chupa-chupa até é vegan. Ainda assim, parece-me um bocado doente.


terça-feira, 4 de junho de 2013

Eh lá, que livro é esse?

Ontem à noite fui com a Carolina à Feira do Livro, aproveitar as promoções da Hora H. Há mais de uma semana que ela me andava a chatear, e ficou combinado que iríamos quando acabasse a época de testes. E lá andámos, pai e filha, a horas pouco recomendáveis, em turismo cultural. Ela comprou alguns livros com o dinheiro da sua semanada, como é suposto. Só que no conjunto sobressaiu este:


O senhor da barraquinha ficou a olhar para mim de lado. Eu engoli em seco. E desde então estou para aqui a matutar se a Carolina me estará a querer dizer alguma coisa...

segunda-feira, 3 de junho de 2013

História de um resgate

José Carlos Fernandes

Eis o meu texto de ontem na revista do CM:

A minha casa está como os mercados: demasiado exposta a flutuações. Consoante o estado de espírito de cada membro e as variações de confiança entre uns e outros, assim se vai alterando a dinâmica familiar. Cabe aos pais o papel de reguladores caseiros, tentando gerir as interacções entre os vários players, com o objectivo de evitar um crash em matérias sentimentais ou fases de grandes depressões de qualquer um dos quatro activos mais frágeis, que possam em última análise afundar a bolsa doméstica.

Aquilo que tenho em casa mais próximo de um swap de alto risco é o Gui. O Gui é um tipo castiço, que quando é apanhado bem-disposto promete sempre altas taxas de juro em termos de divertimento. Mas a sua instabilidade é grande, e de repente vai-se a ver e estamos com um problema tóxico nas mãos. A velocidade a que ele consegue passar do choro ao riso é tão grande que cheguei a inventar uma nova palavra – o chorriso – para designar o seu estranho estado. E a verdade é que, apesar de já levar cinco anos de maturidade, as flutuações do seu humor nunca permitem a acalmia no coração de um corretor.

Hoje em dia, os problemas advêm sobretudo da sua falta de sustentabilidade afectiva, em boa parte por os seus sentimentos ainda estarem indexados à Rita. Quando a Rita apareceu no mercado, há nove meses, o Gui teve uma notável performance, ao ponto de a nossa agência familiar lhe ter dado triplo A em matéria de solidez emocional. Mas, aos poucos, começaram a aparecer alguns sinais de que o seu rating possa ter sido mal avaliado: não tanto por causa de ciúmes jogados às claras no mercado da dívida amorosa, mas por causa de um acumular de pequenas birras, mal negociadas debaixo da mesa e sempre à procura de transferências para paraísos sentimentais.

A mais recente prova dessa actuação desregulada ocorreu quando decidimos montar na sala um parque para a Rita, que já se consegue sentar e estava farta de viajar da cama para a cadeira e da cadeira para a cama. A Rita gostou muito do seu novo parque, mas o Gui tratou logo de lhe fazer uma OPA hostil. Tirou os sapatos, saltou lá para dentro e decidiu armar-se em défice português: demasiado grande para estar ali, mas muito difícil de remover. Não fosse os reguladores terem ameaçado aplicar-lhe uma boa dose de austeridade no sítio onde as costas acabam, e por esta altura o Gui ainda lá estava.

domingo, 2 de junho de 2013

Agora põe isso na boca de um adulto 2

Em relação ao vídeo que postei aqui, já existe um segundo episódio:


Para o pessoal Mac que está com dificuldade ("dificuldade" é neste caso um eufemismo para "incapacidade") em ver o vídeo embedded, aqui fica o link:

http://www.youtube.com/watch?v=-k1qPaDJHOs

Já agora, os mais interessados têm a história toda de Matthew Clarke e do sucesso dos seus filmes aqui.

Santana Lopes tem toda a razão

Na sexta-feira, Pedro Santana Lopes assinou um curioso artigo no Correio da Manhã, intitulado "As escolas e o trabalho das nossas famílias". Passando por cima do facto de ele utilizar capitulares para falar de Pais, Filhos e Irmãs (parecem membros de uma nova Santíssima Trindade), o problema que ele levanta é bem real - e eu, como pai de quatro, sinto-o cada vez mais na pele. As solicitações escolares (e de todas as outras actividades extra-curiculares que eles praticam) são tão numerosas, que para ir a tudo um gajo precisaria de ser pai a tempo inteiro. Então agora que o fim das aulas se aproxima...
Ora leiam:

Cada vez me dou mais conta, também a nível profissional, de uma realidade intrigante que se vai acentuando com o tempo. Consiste essa realidade no crescendo de solicitações aos Pais e Famílias dos alunos das nossas escolas para comparecerem em iniciativas e atividades, para lá das reuniões, até 4 horas por trimestre, já previstas na legislação laboral [artº 249º, nº 2, al-f) do Código de Trabalho].

Numa Instituição de que sou o primeiro responsável, acontece com cada vez maior frequência chamar por alguém e ouvir a resposta de que a pessoa em causa não está porque teve de ir à Escola da Filha ou do Filho. Depois, quando, simpaticamente, me procuram dizer o motivo – mesmo sem eu querer saber –, lá vem a referência a uma festa, a uma representação, a uma excursão. Cada vez mais chego à conclusão de que em várias Escolas se entende que os Pais não trabalham ou que, pelo menos, estão à disposição dos professores.

Acredito que eu e muitos outros tenhamos sido educados por métodos errados, reacionários, ou o que quiserem chamar. Mas nunca vi os meus Pais terem de ir à Escola, sequer para serem informados em reuniões do que se passava com o Filho. Trabalhavam e, mesmo que os chamassem, não poderiam ir. Como se justifica esta correria com as pessoas afogueadas a atravessarem a cidade para chegarem a horas de um sarau, da declamação de um poema, de uma peça de teatro? É que não se pode esquecer que se a Mãe ou o Pai não estão presentes, as crianças ficam tristíssimas, olhando para as outras cujos Pais puderam comparecer.

Os meus Filhos já têm vinte anos ou mais. Mas quando os mais novos estavam na Escola esta moda acentuou-se. Tenho Filhos de Irmãs que estão nos primeiros anos da formação e bem vejo o que se passa. Chega-se ao ponto de se pretender que os Pais participem nas aulas.

A questão é simples: e o trabalho? Como podem as pessoas justificar as faltas? As chefias ficam sempre com "cara de tacho" quando o pedido é feito, porque ninguém é capaz de dizer não a Pais que têm um Filho à espera? Não é só em Portugal que a moda pegou. Mas será justificável?