quarta-feira, 10 de abril de 2013

Bilhetes de família que afinal não são bem para todas as famílias

A Maria Calais Pedro levantou no Facebook uma questão muito interessante, com a qual nós, pais de famílias numerosas, estamos constantemente a confrontar-nos: o facto de os alegados "bilhetes de família" nunca, mas nunca, contemplarem as nossas próprias famílias. Ela escreveu isso a propósito da exposição da Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda, cujo preçário é este:

Preços:
Normal – 10€
Jovem – 5€ (dos 6 aos 18 anos)
Sénior – 5€ (maiores de 65 anos)
Criança – Entrada gratuita (até aos 6 anos)
Estudante – 5€ (até aos 25 anos, mediante apresentação do cartão de estudante)
Família 1 – 20€ (2 adultos + 1 criança entre os 3 e os 18 anos)
Família 2 – 24€ (2 adultos + 2 crianças entre os 3 e os 18 anos)

Fast Lane Adulto – 15€ (acesso prioritário)
Fast Lane Jovem – 10€ (acesso prioritário)
Escolas – 4€ (até ao 12.ª ano. 1 professor com entrada gratuita por cada 20 alunos)
Universidades – 4€ 


Acrescenta a Maria Calais Pedro:

Adoro a família 1 e 2! Vê-se que somos uma excepção... ou então que famílias com mais de dois filhos não são dadas à cultura (ou não podem sê-lo).

Nem mais. Quem faz o raio destes preçários, seja no Palácio da Ajuda, seja no Pavilhão do Conhecimento, nem que fosse por uma questão de amabilidade demográfica, poderia contemplar o facto de ainda existirem uns malucos que fazem três filhos ou mais. O país gosta muito de chorar a sua falta de criancinhas, mas a verdade é que nunca mexe um dedo - nem que seja simbólico - para acarinhar quem se reproduz com tão patriótico entusiasmo. Isto não é uma questão de medidas políticas - é de cultura, mesmo, e num sentido mais abrangente do que aquele que Joana Vasconcelos lhe dá.


terça-feira, 9 de abril de 2013

Um desenho, uma foto e um esclarecimento

O Vítor Cabeça enviou-me um desenho que o seu filho Tomás fez a partir d'O Pai Mais Horrível do Mundo. Vai sair no jornal da escola e tudo. Obviamente, não resisto a mostrá-lo aqui:


Ao mesmo tempo, também recebi hoje umas fotos da minha ida à escola da Carolina e do Tomás para ler o livro Uma Baleia no Quarto às quatro turmas do terceiro ano. Ó p'ra mim em grande estilo:


E já que volto ao tema dos livros infantis, aproveito para prestar um esclarecimento à leitora, que deixou no blogue esta pergunta sobre A Crise Explicada às Crianças (e assim despacho a minha trilogia infantil num único post):

Já há algum tempo que o livro A Crise Explicada às Crianças me intriga. Porquê às crianças de esquerda e às crianças de direita. Será que me pode explicar o significado?

Como diria um político profissional, isso acontece por três razões distintas. Em primeiro lugar, porque A Crise Explicada às Crianças é apenas um semi-livro para crianças - na verdade, ele é também uma sátira ao mundo em que vivemos e ao facto de nos conformarmos com uma visão primária da realidade digna de uma história da carochinha (a culpa da nossa situação é dos ursos gordos ou das abelhas furiosas?). Em segundo lugar, porque não considero a política uma coisa suja, que foi uma crítica que algumas pessoas me fizeram aquando do lançamento ("que horror!, a politizar miúdos desde pequeninos!"), e acho óptimo que os miúdos percebam desde a mais tenra idade as diferenças essenciais entre esquerda e direita. Em terceiro e último lugar, porque o livro é também uma experiência formal, e esse paralelismo permitia-me múltiplas brincadeiras gráficas e narrativas. E pronto, é isso. Ou, citando o grande Miguel Relvas, são essas ambas as três razões.


Alguém me arranja um índio e um cowboy, sff

Digam-me: há por aí alguém que se queria lançar comigo na construção de uma fábrica de bonecos de plástico? É que há definitivamente um nicho de mercado por explorar - e não é só em Portugal, mas no mundo inteiro. Eu sei que nestas coisas a nostalgia fala sempre um bocado alto, e que todos nós gostávamos de ver nas prateleiras das lojas de brinquedos aquilo que nos fez feliz na nossa infância. Os miúdos de hoje em dia gostam de outras coisas, não é? Até pode ser que sim. Mas quem continua a comprar brinquedos são os pais. E entre as vendas do Homem-Aranha suplantarem as caixas de índios e cowboys, e as caixas de índios e cowboys pura e simplesmente desaparecerem do mercado vai uma grande diferença. Mas a verdade é essa: o clássico bonequinho de três centímetros de altura em PVC que não está ligado ao último filme da Disney ou à última série de animação japonesa eclipsou-se do mercado.

E quando digo do mercado, é do mercado mundial. Nem na Amazon se encontra. Minto: é sempre possível encontrar coisas como esta, se se vasculhar fundo nas prateleiras ou nas lojas de chineses:


Mas em geral isto é chungaria do pior. Além das cores ridículas - qualquer profissional destas coisas sabe que não se misturam índios verdes com azuis e vermelhos e amarelos -, estes bonecos made in China usam moldes de bonecos antigos (eu brinquei com alguns que se podem ver na imagem) mas a qualidade de fabrico dos dias de hoje é abaixo de miserável, com acabamentos a anos-luz do antigamente.

É certo que marcas super-profissionais como a alemã Schleich ainda têm alguns índios e cowboys no seu catálogo, tipo este

mas a Schleich já sofre do problema oposto: é tudo tão bonitinho que mais parece para contemplar do que para brincar, além de que cada uma destas coisas custa para cima de dez euros. Para formar um exército - e sem um número razoável de figuras nada disto tem grande graça - é preciso assaltar o banco mais próximo.

A questão é esta: onde estão as alternativas aos antigos bonecos da Timpo ou da Heimo? Por muita tecnologia e jogos de computador que por aí haja, os miúdos gostam de variar. As crianças de hoje em dia têm as mesmas cabeças das crianças de há 30 anos, e basta ver o meu Tomás a delirar com os meus brinquedos antigos - cada vez que ele chega ao Alentejo a primeira coisa que pede é para a avó lhe ir buscar os velhos bonecos - para percebermos que o mundo dos bonecos infantis não tem necessariamente de ser reduzido à avalanche de merchandise de Hollywood.

Brinquedos maravilhosos como estes



ou estes



continuariam a animar a actual geração se estivessem à disposição dos mais novos. Porque, de facto, a brutal uniformização das actuais lojas de brinquedos é absolutamente assustadora. Basta ir à Toys'R'Us para percebermos como é possível haver, ao mesmo tempo, tanta, tanta coisa, e tão pouca variedade.

O ministro Álvaro quer salvar o país a exportar pastéis de nata. Pois eu cá quero salvá-lo a exportar brinquedos à moda antiga. Há por aí sócios capitalistas que saibam como é que se fabricam bonecos em plástico? Eu cá estou nessa.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Uma entrevista assim mais ou menos para o fundamental

A Magda, do Mum's the Boss, que de quando em vez opina sobre os nossos posts, fez-me uma entrevista online que hoje publicou no seu blogue. Depois de esperar pacientemente dois ou três meses pela minha resposta, ela lá chegou numa madrugada qualquer, porque eu tardo (cada vez mais) mas não costumo falhar. É uma entrevista importante, onde se encontram esclarecimentos tão reveladores quanto este:

Como é que surgiu a ideia de fazerem um blogue? Não tinham mais nada com que se entreter?
Fui eu que insisti. A minha esperança é que se fizéssemos um blogue em conjunto iríamos deixar de ter tempo para fazer mais filhos. Até agora está a resultar.

Não percam. Está tudo aqui.

Tu já és grande, pá!

Ilustração de José Carlos Fernandes

Eis o meu texto de ontem na revista do CM:

Na semana passada falei aqui de uma sensação nova que me assaltou a vida: a consciência de que deixei de conseguir dar resposta a todas as solicitações de quatro filhos. É verdade que se a minha excelentíssima esposa pudesse comentar este texto enquanto o escrevo (estou neste preciso momento a ouvi-la dentro da minha cabeça), diria que não há aí nada de novo, já que foi sempre ela quem teve de se doutorar em contorcionismo para conseguir estar em todo o lado ao mesmo tempo. Mas do meu ponto de vista há algo de novo, sim.

É certo que eu, ao contrário dela, nunca fui capaz de passar semanas e semanas em ti-nó-ni pela cidade, a acorrer a todas as necessidades das crianças. A Teresa coloca para si própria exigências domésticas e parentais que eu jamais conseguirei acompanhar, e vivo bem com isso. Mas mesmo sendo mais lassos os meus critérios, e bastante mais curta a lista mental de eventos ou obrigações às quais não posso faltar, tenho de reconhecer isto: ainda assim, essa lista começa a ser muito difícil de gerir.

A principal diferença não está no facto de o nascimento da Rita ter alterado os multiplicadores, e onde estava vezes três passar a estar vezes quatro. A principal diferença está nas progressivas exigências escolares dos dois filhos mais velhos e na questão do estudo acompanhado. A Teresa também é condutora do INEM infanto-juvenil em matérias académicas, e no final de cada período é vê-la atravessar o corredor com as luzes a piscar, saltando velozmente de uma trombose ortográfica para um capotamento algébrico. Como eu não lhe consigo acompanhar o ritmo, acabo por ser acusado de ser um daqueles mirones que prefere ficar a dar palpites à beira da estrada, em vez de ajudar nas manobras de ressuscitação de certos sólidos geométricos.

Invariavelmente, acabamos a discutir sobre os benefícios de cada um velar sobre a sua própria saúde: a Teresa acha que eles ainda necessitam do nosso apoio e de uma intervenção regular, eu acho que a nossa intervenção tem de se limitar a impor regras de estudo apertadas, porque a vida é como o Alentejo – nem sempre há uma VMER à mão. São duas formas diferentes de exercer medicina. Uma mais médico de família fofinho, outra mais de gajo implacável com falsas urgências. Os pacientes gostam mais do primeiro, claro. Mas temo que só o segundo assegure a sustentabilidade do sistema de saúde caseiro.

domingo, 7 de abril de 2013

A fadinha dos dentes veio de panzer

Na quinta-feira caiu mais um dos dentes incisivos do Tomás. É engraçado como a queda de um dente é motivo para tamanha alegria nas crianças. O miúdo não se calava desde o fim-de-semana, dizendo que tinha um dente a abanar. Todas as manhãs e noites perguntava-me se era agora que ele ia cair, porque cá em casa eu sou a dentista de serviço - mesmo que o João mostre vontade de lhes dar um jeitinho ao dente, eles respondem logo que a mamã é que é médica.

Ora, como na quarta-feira de manhã eu lhe disse que estava mesmo quase, quase a cair, o Tomás declarou na escola que no dia seguinte já voltaria desdentado. Acontece que nessa noite cheguei muito tarde a casa, e quando ele se aproximou de boca arregalada para lhe tratar do dente eu chutei para canto e disse-lhe que era muito tarde e que ele podia sangrar muito...

O Tomás ficou desconsolado. Ele leva a sua palavra muito a sério, e se diz na escola que vai regressar sem dente, é mesmo para regressar sem dente - nem que seja preciso arrancar um de propósito. Resultado, na quinta de manhã, apareceu-me no quarto assim que acordou, e lá lhe dei uma traulitada no dente com ar de quem estava a fazer um tratamento dentário de elevadíssima dificuldade. Já com um dente a menos, foi de sorriso arreganhado para a escola, e se alguém passava por ele sem perceber a falta do dente, o Tomás encarregava-se logo de esclarecer a situação, mesmo que se tratasse de um desconhecido.

À tarde é que foram elas! Ele pediu-me para dizer à fadinha dos dentes que queria uns mini-soldadinhos da Segunda Guerra Mundial em troca do dente. O Tomás é o miúdo mais pacífico do mundo, mas adora fazer lutas e guerras com mini-soldadinhos desde que descobriu que esta era a brincadeira favorita do pai quando era pequeno. Como o João tinha ido para o Porto, eu não podia sair à noite para os procurar, e por isso tive de enfrentar umas filas de trânsito gigantes ao fim da tarde para conseguir ir ao Corte Inglès à procura deles na secção de modelismo.

Valeu a pena. Apesar de ter atrasado todas as tarefas do fim do dia, ao menos já tinha uma prenda em casa no momento em que ele foi buscar o dente à caixinha onde o tinha guardado de manhã. Claro que o Tomás andou agarrado ao dente até se deitar, e a páginas tantas já pensava que o tinha perdido no meio dos brinquedos. Virámos as caixas, comigo mais ansiosa do que ele para ao menos compensar o esforço da ida ao El Corte Inglés, e finalmente o dente lá apareceu. A normalidade foi reposta, e o Gui (só ele é que se lembra destas coisas) pediu para deixar a porta do quarto aberta para a fadinha entrar.

De manhã, mal abriu um olho, o Tomás agarrou na prenda que estava debaixo da almofada e anunciou deliciosamente que a fadinha dos dentes tinha muito bom gosto, porque tinha escolhido os soldadinhos das divisões Panzer alemãs, exactamente os que o papá andava a mostrar nas aulas sobre a Segunda Guerra Mundial durante a hora do jantar. "Muito esperta, a fadinha", disse ele.

E nem quando o papá chegou e se disse espantado por a mamã ter encontrado exactamente os soldadinhos Panzer, o Tomás se atrapalhou: "Ó papá, não foi a mamã! Foi a fadinha dos dentes!" A força da magia dentária é muito forte nesta casa. Mantê-la dá bastante trabalho, como se vê, e obriga a raides apressados a centros comerciais. Mas, no final, o esforço compensa.

A divisão Panzer em exercícios de combate na mesa da cozinha

O Pai Mais Horrível na Fnac Vasco da Gama

Se alguém andar a passear com as criancinhas ali para os lados do Parque das Nações e quiser dar um pulo à Fnac Vasco da Gama, eu hoje vou estar lá pelas 16.30 a ler O Pai Mais Horrível do Mundo. Os pais e mães horríveis estão especialmente convidados.


sábado, 6 de abril de 2013

A professora Carolina e os seus três alunos

Há dois dias que os miúdos não me deixam cinco segundos sozinha. Com o pai fora de casa (o que me impede de os mandar perguntar isto ou aquilo ao papá), eles perseguem-me por todo o lado.

Esta manhã sentei-me ao computador uns minutos e vieram logo os quatro atrás de mim (Rita incluída, sentada na sua cadeirinha e arrastada pela casa pelo Gui). De minuto a minuto, perguntavam-me: "Já está? Já acabaste?" Não há concentração que resista.

Então, resolvi pedir-lhes para escreverem qualquer coisa no quadro (que está mesmo ao lado do meu cantinho na mesa da biblioteca) e eles rapidamente transformaram a brincadeira numa sala de aulas, em que a Carolina (adivinhem) era a professora (claro, tem que ser sempre a chefe) e os outros três os alunos.




Bendito faz-de-conta - e não é que consegui mesmo ganhar meia hora de trabalho só para mim?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

De volta à Urra

Portugal é mesmo muito pequenino (ou então é este blogue que é muito grande), e depois de eu ter feito um post onde falava da Urra - uma aldeia a meia-dúzia de quilómetros de Portalegre, onde o meu pai nasceu e onde nós temos uma pequena quinta de família -, alguns leitores deram sinal de já terem passado por lá. Nem por acaso, andava eu a arrumar uns papéis na minha casa antiga e encontrei esta fotografia maravilhosa, tirada precisamente no campo de futebol da Urra.

Hoje em dia - e porque felizmente ainda há coisas que não mudam -, o campo está mais ou menos na mesma (apenas com mais erva), e agora sou eu que vou para lá com o meu filho Tomás, que adora jogar futebol. O senhor atlético (excepto na zona abdominal) da fotografia, com impecáveis meias brancas e o bigode do Quim Barreiros, é o meu pai, e aquele jovem encantador preparado para partir em direcção ao Pólo Norte sou eu. Tendo em conta o meu tamanho, a foto deve ter sido tirada em 1977 ou 1978.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

A Rita gosta imenso da Maria

A Ritinha descobriu as bolachas Maria... e como não podia deixar de ser adorou!!!




As velhinhas bolachas são recomendadas por nutricionistas e óptimas até para planos de dieta (desde que não se ultrapassem as 3-4/dia). Embora muita gente não saiba, elas têm menor concentração de gordura e de sal do que as bolachas de água e sal, habitualmente consideradas ideais em lanches entre refeições para quem quer perder peso.

Diálogos em família #12

- Meninos, eu hoje à tarde vou para o Porto e só regresso no sábado. Portem-se bem e ajudem muito a mamã, ok?
- Tu vais levar o iPad?
- Claro, Tomás.
- Oh.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Papel? Qual papel?

Assim de repente, é capaz de haver gente cá em casa que se sente um bocadinho identificada com isto:

terça-feira, 2 de abril de 2013

A ressaca

Há aqueles para quem "ressaca" significa acordar sem se saber bem em que terra se está após uma noite de loucura, com muito sexo e muito álcool, de preferência num destino exótico.


Mas cá em casa "ressaca" não significa nada disso. Significa, isso sim, retomar a actividade normal depois de 15 dias de férias, com quatro putos completamente destrambelhados pela alteração de rotinas, pela mudança da hora de Verão e pela necessidade de voltar a colocar nos eixos um comboio de 40 toneladas. A Teresa, então, que tem um sono bastante mais leve do que o meu (é uma característica dos gajos, não é?, será que fazemos de propósito?) passou a noite inteira a combater fogos em quatro frentes (feliz ou infelizmente, a maior parte das vezes eu só via passar o autotanque por um canto do olho). Portanto, para nós - mas sobretudo para ela -, "ressaca" é muito menos aquilo do que isto.


A mesma exaustão, mas com 0% de álcool, nenhum sexo, e putos na casa de banho em vez de tigres ou macacos. Ou seja, eu e a excelentíssima esposa estamos constantemente dentro de um filme. Só que ninguém quer ver a nossa versão de A Ressaca. Enfim, é a vida. Ou então, um azar do caraças.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Regresso a casa


Já me faltam mãos



Eis o meu texto de ontem na revista do CM:

Ora cá está uma fase pela qual ainda não tinha passado na minha vida, o que só prova que com quatro filhos nunca hei-de morrer de tédio. Quando tudo parece esgotar-se num ramerrame diário, há uma certa manhã em que acordamos e descobrimos: “espera lá, neste preciso momento estou a ser invadido por uma sensação inteiramente nova”. É giro ao fim de quase uma década de paternidade depararmo-nos com pasmos inéditos e estreias sentimentais, para mais sem qualquer relação com o advento da puberdade (que está quase a chegar, receio bem…).

“Mas, afinal, que sensação é essa?”, pergunta o leitor enfadado com a minha incapacidade de ir directo ao assunto, e que só estar a ler este texto porque a bica veio demasiado quente. Peço desculpa. Você tem mais que fazer na vida, não é, caro leitor? Pois comigo passa-se o mesmo: tenho mais que fazer na vida. Ao que acresce uma inultrapassável limitação física, que é onde está a novidade: tenho muito mas já não tenho como. Eu sempre trabalhei muito (nos dias de hoje convém acrescentar “felizmente”), mas só agora, com a chegada da Ritinha e o crescimento da Carolina e do Tomás, é que sinto que cheguei, de facto, ao limite da minha flexibilidade paterno-laboral: por muito que queira, e por muito pouco que durma, já não dá mais.

O resto do texto pode ser lido aqui. A ilustração é do José Carlos Fernandes.