A Carolina deixou-se engripar. Passou a noite com febre e parte da noite enfiada na banheira com água tépida. Hoje não pôde ir à escola, e aproveitou para dar início à construção de uma data de Legos que ganhou num concurso do El Corte Inglés - quando ontem cheguei a casa com quatro caixas de Lego Friends era como se o Pai Natal tivesse voltado uma segunda vez.
E esta é a parte gira de estar doente:
Desde que uma pessoa não esteja internada e com agulhas espetadas nos braços, uma gripe curada em casa com mimo e canja de galinha pode ser uma experiência altamente agradável, como mais uma vez está a comprovar a Carolina.
Os dois irmãos, meio macambúzios, lá tiveram de ir para a escola (o Tomás estava muito preocupado por não ter a mana mais velha a seu lado para o proteger dos meninos do segundo ano), com bastante inveja por verem a Carolina ficar para trás, e desejando secretamente que um vírus parecido comece a andar à batatada com os seus sistemas imunitários, a ver se lhes calha tratamento semelhante.
E, de facto, quando olho para trás, as gripes da minha infância, curadas com chá e mel, são recordadas com doce nostalgia. Brincadeira, mimo dos pais, com sorte uma noite dormida na cama deles - o que é que há para não gostar?
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Como assim couves com azeite?
Senhoras e senhores, devo dizer que este post e os respectivos comentários me estão a deixar abismado. Uma pessoa começa na salsa e num piscar de olhos já esta nas couves com azeite. Afinal, quantas coisas é que um pobre português já teve de suportar pelo rabo acima?
Ei, tira daí essa salsa!
A propósito de salsa, referida neste post, atentem-me para esta coincidência herbácea: estava eu a discutir com a minha mãe ao almoço cólicas de bebé e obstipação (sempre um dos nossos temas favoritos para acompanhar um bom entrecosto de vitela), quando ela me informa do seguinte método artesanal, do qual parece que usufrui em tempos, com notável eficácia:
- Sabes, quando tu eras pequeno nós não usávamos esses tubos de plástico intermináveis que vocês enfiam na pobre Rita.
- Ai não? Então usavam o quê?
- Salsa.
- Salsa?!?
- Sim, cortávamos um pezinho de salsa - escolhíamos um daqueles caules mais grossos, aí com um dedo de comprimento - e depois enfiávamos o pé de salsa com muito cuidado nos bebés.
- Eeeeeeeeei! Estás a dizer-me que eu já tive pés de salsa enfiados no rabo?!?
- Muitos.
(Suspiro.) Nunca é tarde de mais para aprender certas coisas. Eu, por exemplo, tenho 39 anos e descobri hoje ao almoço que passei os primeiros anos da minha vida com o rabo condimentado. Só faltou acrescentar um dentinho de alho. Desconfio que se a coisa não resultasse, já estava temperado e a minha mãe só tinha de me levar ao forno. Aí pelos 180 graus parava de certeza de me queixar das cólicas. Mas, felizmente, a coisa resultou espectacularmente bem - para aí desde os seis meses que não sofro de obstipação. Portanto, está decidido: da próxima vez que a Rita começar a guinchar, lixo-me para a farmácia e vou directamente à secção de vegetais do Pingo Doce.
Se partilho isto aqui, é para vocês todos poderem fazer o mesmo.
- Sabes, quando tu eras pequeno nós não usávamos esses tubos de plástico intermináveis que vocês enfiam na pobre Rita.
- Ai não? Então usavam o quê?
- Salsa.
- Salsa?!?
- Sim, cortávamos um pezinho de salsa - escolhíamos um daqueles caules mais grossos, aí com um dedo de comprimento - e depois enfiávamos o pé de salsa com muito cuidado nos bebés.
- Eeeeeeeeei! Estás a dizer-me que eu já tive pés de salsa enfiados no rabo?!?
- Muitos.
(Suspiro.) Nunca é tarde de mais para aprender certas coisas. Eu, por exemplo, tenho 39 anos e descobri hoje ao almoço que passei os primeiros anos da minha vida com o rabo condimentado. Só faltou acrescentar um dentinho de alho. Desconfio que se a coisa não resultasse, já estava temperado e a minha mãe só tinha de me levar ao forno. Aí pelos 180 graus parava de certeza de me queixar das cólicas. Mas, felizmente, a coisa resultou espectacularmente bem - para aí desde os seis meses que não sofro de obstipação. Portanto, está decidido: da próxima vez que a Rita começar a guinchar, lixo-me para a farmácia e vou directamente à secção de vegetais do Pingo Doce.
Se partilho isto aqui, é para vocês todos poderem fazer o mesmo.
A mamã é médica #7.1
Um leitor escreveu: O leite não é a maior fonte de cálcio disponível, não sendo necessariamente essencial à dieta de uma criança (como muitos meninos e meninas intolerantes à lactose que nem por isso deixam de crescer saudáveis o comprovam). Até amêndoas e sementes de sésamo têm mais cálcio do que o leite (e ambos podem ser incluídos facilmente em pães ou até bolachas caseiras - em que se controla os açúcares e nem por isso deixam de ser atractivas para os mais pequenitos.)
E ainda outro, a respeito de um post em que uma mãe se preocupava por o filho não gostar de leite: O pequeno parece comportar-se como os restantes mamíferos conhecidos. Ao que parece somos os únicos que insistem em continuar, e até obrigar-nos, a beber leite de outros bichos.
Nos últimos anos têm sido muito acesas as discussões e debates sobre se o leite é ou não um alimento saudável para os humanos, em especial para as crianças. Os argumentos de um e outro lado da questão são múltiplos e por vezes extremados e pouco simpáticos (ou não fossem os nomes dos pobres animais que produzem o dito cujo - vacas e cabras - propícios a trocadilhos deselegantes). Por decreto, quando nos referimos a leite alimentar estamos a falar de leite de vaca. Quando queremos falar de leite de cabra ou outros temos que especificar a origem.
Como há muitos pontos importantes a discutir, divido a discussão em dois posts.
Comecemos pelos argumentos contra a ingestão: que há alimentos mais ricos em cálcio do que o leite, que somos a única espécie que bebe leite depois da infância e a única que bebe leite proveniente de outra espécie, que o leite contém hormonas que são administradas às vacas para crescerem mais rapidamente, que a maior parte dos lacticínios é pasteurizada e que esse processo destrói as proteínas do leite, que é homogeneizada e isso desnatura as proteínas e torna o leite mais difícil de digerir, que o leite tem mais colesterol que o bacon, que as vacas são alimentadas com milho e soja geneticamente modificados, restos de animais, pesticidas e antibióticos, que existe maior incidência de fracturas osteoporóticas em países com elevado consumo de produtos lácteos, que quem consome produtos animais tem um cemitério de bichos no estômago, e por aí adiante.
E ainda outro, a respeito de um post em que uma mãe se preocupava por o filho não gostar de leite: O pequeno parece comportar-se como os restantes mamíferos conhecidos. Ao que parece somos os únicos que insistem em continuar, e até obrigar-nos, a beber leite de outros bichos.
Nos últimos anos têm sido muito acesas as discussões e debates sobre se o leite é ou não um alimento saudável para os humanos, em especial para as crianças. Os argumentos de um e outro lado da questão são múltiplos e por vezes extremados e pouco simpáticos (ou não fossem os nomes dos pobres animais que produzem o dito cujo - vacas e cabras - propícios a trocadilhos deselegantes). Por decreto, quando nos referimos a leite alimentar estamos a falar de leite de vaca. Quando queremos falar de leite de cabra ou outros temos que especificar a origem.
Como há muitos pontos importantes a discutir, divido a discussão em dois posts.
Comecemos pelos argumentos contra a ingestão: que há alimentos mais ricos em cálcio do que o leite, que somos a única espécie que bebe leite depois da infância e a única que bebe leite proveniente de outra espécie, que o leite contém hormonas que são administradas às vacas para crescerem mais rapidamente, que a maior parte dos lacticínios é pasteurizada e que esse processo destrói as proteínas do leite, que é homogeneizada e isso desnatura as proteínas e torna o leite mais difícil de digerir, que o leite tem mais colesterol que o bacon, que as vacas são alimentadas com milho e soja geneticamente modificados, restos de animais, pesticidas e antibióticos, que existe maior incidência de fracturas osteoporóticas em países com elevado consumo de produtos lácteos, que quem consome produtos animais tem um cemitério de bichos no estômago, e por aí adiante.
A decisão de ingerir ou não produtos animais é uma filosofia de vida e, desde que todos os nutrientes sejam incluídos na dieta, por vezes com necessidade de recorrer a suplementos, é uma escolha que só a cada um diz respeito. Não devem ser aqui esquecidas as crianças (em especial os lactentes) que em raros casos sofrem défices vitamínicos importantes, com sérias consequências para a sua saúde, pelas escolhas alimentares pouco informadas dos pais.
É verdade que existem alguns alimentos mais ricos em cálcio do que o leite. As sementes de sésamo ou as amêndoas (estas muito menos) são um exemplo. Agora vejamos: aproximadamente, a quantidade de cálcio existente numa chávena de amêndoas integrais é 378 mg e numa de leite é 300 mg. Só que se ingerirmos a primeira estamos a consumir cerca de oito vezes mais calorias do que com a segunda. Percebe-se, portanto, porque é que as amêndoas não são consideradas pela FDA (órgão governamental que controla os alimentos e medicamentos nos EUA) um boa fonte de cálcio (por definição a quantidade de referência diária de um determinado alimento deve fornecer 10-19% da dose diária recomendada desse nutriente para ser considerada uma boa fonte nutricional), ainda que o seu consumo seja altamente recomendável.
Sobre o conteúdo ilícito de antibióticos, hormonas, pesticidas e bactérias no leite alimentar não me vou pronunciar. Os métodos de análise e controle do leite estão regulamentados, são minuciosos, e é suposto que funcionem e sejam verificados pelas entidades responsáveis.
É verdade que o tratamento térmico que o leite alimentar sofre (com vista a destruir os organismos indesejáveis), e a sua homogeneização, alteram significativamente a fracção proteica útil do leite e induzem perda de nutrientes. Aqui o que conta é o que se obtém da relação custo-benefício e ainda assim o resultado, segundo estudos credíveis de equipas credenciadas na área de Pediatria e Gastrenterologia, é positivo, re-assumindo-se o leite como uma fonte primordial de proteínas e cálcio.
Sobre o conteúdo de gorduras no leite já aqui me referi em A mamã é médica #2.
Em relação às patologias que se associam ao consumo de leite falarei no post seguinte.
Em relação às patologias que se associam ao consumo de leite falarei no post seguinte.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Dois suspiros
A Rita está na fase dos dentes e por isso anda muito impaciente e difícil de calar. É dar-lhe colo e pôr salsa nos ouvidos, como faziam os gauleses do Astérix para não terem de escutar o bardo. Contudo, nas alturas em que finalmente adormece após uma boa gritaria, há sempre uma espécie de pré-aviso de paz doméstica, que é quando ela, já algum tempo depois de parar de berrar mas ainda na fase do "nham nham nham", dá dois suspiros consecutivos. Como quem diz: "OK, rendo-me, vou mas é dormir." Todos os meus filhos faziam aquele duplo suspiro em bebés, pelo que suponho que seja uma característica da espécie. Não sei se a coisa tem nome. O que sei é que é música para os meus maltratados ouvidos.
A primeira composição da Carolina
Nós todos gostamos muito de música cá em casa, achamos que ela é óptima para disciplinar cabeças e ordenar ideias, e por isso sempre foi para nós evidente que os nossos filhos começariam a estudar música desde pequenos. A Carolina iniciou há quatro meses o estudo de piano - o nosso principal investimento familiar do último ano foi comprar um piano branco à Richard Clayderman (uuurgh!). E como ela sempre foi uma rapariga muito modesta, há três ou quatro semanas decidiu presentear-nos com a sua "primeira composição".
Senhoras e senhores, com música e letra de Carolina Mendonça Tavares, o grande hit da zona do Areeiro, "Só de Pensar em Ti":
É certo que o espírito de Wolfgang Amadeus não habita esta casa nem a cabeça da minha filha mais velha. Hélas. Mas aquela parte aos 14 segundos de gravação em que ela ajeita o cabelo com a mão direita ao mesmo tempo que continua a tocar com a mão esquerda abre algumas perspectivas no mundo da música pop.
Isso, claro, e a espantosa letra que ela escreveu, e que vale a pena analisar em detalhe.
"Só de pensar em ti, fico louca."
Comentário do pai: Oi? Ficas o quê?
"Mesmo assim ao pé de ti"
Comentário do pai: Como "assim ao pé de ti"? Ao pé de quem? E a que distância?
"Fico louca"
Comentário do pai: Outra vez? Louca duas vezes? Vai mas é meter a cabeça debaixo do chuveiro a ver se isso te passa, minha menina!
"Quero que me dês a mão"
Comentário do pai: Ai não dás, não senhor. Tira daí a mão, pá!
"Para te beijar!"
Comentário do pai: O QUÊÊÊÊÊ? Paf! Slash! Trás! Paf! Paf!
Eu, francamente, não sei de que parte da sua cabeça a minha filha de oito anos, que aparentemente já está a viver uma preocupante pré-adolescência, foi retirar esta sua letra. Não foi com as Canções da Maria. Nem com os Caricas. Nem com a Xana Toc Toc. Tenho gente a crescer demasiado depressa cá em casa, é o que é.
É certo que dois dias depois a Carolina decidiu mudar, por sua própria iniciativa (juro que estou inocente), o "para te beijar" por um mais casto "para te abraçar", o que sempre deu algum conforto ao meu atormentado coração de pai e manteve a métrica intacta. Mas, pelo sim pelo não, vou pôr-me a pau.
Como diz o grande José Mário Branco (aqui pela boca do Camané): "A cantar, a cantar é que te deixas levar."
Senhoras e senhores, com música e letra de Carolina Mendonça Tavares, o grande hit da zona do Areeiro, "Só de Pensar em Ti":
É certo que o espírito de Wolfgang Amadeus não habita esta casa nem a cabeça da minha filha mais velha. Hélas. Mas aquela parte aos 14 segundos de gravação em que ela ajeita o cabelo com a mão direita ao mesmo tempo que continua a tocar com a mão esquerda abre algumas perspectivas no mundo da música pop.
Isso, claro, e a espantosa letra que ela escreveu, e que vale a pena analisar em detalhe.
Manuscrito original, datado de Dezembro de 2012
"Só de pensar em ti, fico louca."
Comentário do pai: Oi? Ficas o quê?
"Mesmo assim ao pé de ti"
Comentário do pai: Como "assim ao pé de ti"? Ao pé de quem? E a que distância?
"Fico louca"
Comentário do pai: Outra vez? Louca duas vezes? Vai mas é meter a cabeça debaixo do chuveiro a ver se isso te passa, minha menina!
"Quero que me dês a mão"
Comentário do pai: Ai não dás, não senhor. Tira daí a mão, pá!
"Para te beijar!"
Comentário do pai: O QUÊÊÊÊÊ? Paf! Slash! Trás! Paf! Paf!
Eu, francamente, não sei de que parte da sua cabeça a minha filha de oito anos, que aparentemente já está a viver uma preocupante pré-adolescência, foi retirar esta sua letra. Não foi com as Canções da Maria. Nem com os Caricas. Nem com a Xana Toc Toc. Tenho gente a crescer demasiado depressa cá em casa, é o que é.
É certo que dois dias depois a Carolina decidiu mudar, por sua própria iniciativa (juro que estou inocente), o "para te beijar" por um mais casto "para te abraçar", o que sempre deu algum conforto ao meu atormentado coração de pai e manteve a métrica intacta. Mas, pelo sim pelo não, vou pôr-me a pau.
Como diz o grande José Mário Branco (aqui pela boca do Camané): "A cantar, a cantar é que te deixas levar."
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Como tudo na vida
Escreveu um leitor, a propósito deste post:
Fala sempre de uma forma que parece que nem gosta da família, que horror. Comecei a vir a este blogue porque achei engraçado ver como se vivia com quatro filhos. Agora começo a achá-lo, a si, demasiado parvo. Tirando a piada a isto, portanto.
Está bem visto: eu sou indiscutivelmente parvo, e tenho dias em que sonho - com enorme e doce nostalgia - com o tempo em que tinha a casa e as noites só para mim. Era tão bom. Mas quero reconfortar o leitor (ou a leitora): também tenho momentos em que aprecio bastante a minha família, os meus filhos, e até a Rita, apesar de ser uma bebé, e de eu não achar graça a bebés. Espero que isso também se note. O que eu espero que não se note, por outro lado, é aqueles falsos textos cor-de-rosa, que fingem que os filhos são a melhor coisa do mundo a toda a hora. Porque não são. E essa linguagem cor-de-rosa fez muitas vítimas ao longo das décadas, sobretudo gente que se convenceu que a família era só maravilhas e amor (até há bem pouco o único discurso politicamente correcto sobre o tema) e que por isso acabava por desistir à segunda curva. O meu compromisso, aqui como em todo o lado, é de honestidade e dedicação canina à sinceridade. Eu acredito que a família é uma extraordinária invenção - mas é bom que as pessoas saibam que de vez em quando não tem graça nenhuma. Como tudo na vida, suponho eu.
Fala sempre de uma forma que parece que nem gosta da família, que horror. Comecei a vir a este blogue porque achei engraçado ver como se vivia com quatro filhos. Agora começo a achá-lo, a si, demasiado parvo. Tirando a piada a isto, portanto.
Está bem visto: eu sou indiscutivelmente parvo, e tenho dias em que sonho - com enorme e doce nostalgia - com o tempo em que tinha a casa e as noites só para mim. Era tão bom. Mas quero reconfortar o leitor (ou a leitora): também tenho momentos em que aprecio bastante a minha família, os meus filhos, e até a Rita, apesar de ser uma bebé, e de eu não achar graça a bebés. Espero que isso também se note. O que eu espero que não se note, por outro lado, é aqueles falsos textos cor-de-rosa, que fingem que os filhos são a melhor coisa do mundo a toda a hora. Porque não são. E essa linguagem cor-de-rosa fez muitas vítimas ao longo das décadas, sobretudo gente que se convenceu que a família era só maravilhas e amor (até há bem pouco o único discurso politicamente correcto sobre o tema) e que por isso acabava por desistir à segunda curva. O meu compromisso, aqui como em todo o lado, é de honestidade e dedicação canina à sinceridade. Eu acredito que a família é uma extraordinária invenção - mas é bom que as pessoas saibam que de vez em quando não tem graça nenhuma. Como tudo na vida, suponho eu.
Quatro meses de descoordenação
Ser um bebé de quatro meses deve ser uma coisa lixada, e como eles não conseguem falar têm dificuldades em explicar as suas frustrações. Estava a pensar nisso enquanto aturava uma birra da Rita. É que, por um lado, eles já não são aqueles monguinhos de dois meses que apenas mamam e dormem, com o mundo a passar-lhes ao lado. Estão com os olhos arregalados, despertos e claramente a descobrir o mundo que os rodeia. Mas, por outro lado, ainda não conseguem agarrar coisa nenhuma nem interagir por sua própria vontade com o que quer que seja. A única coisa que a Rita faz é meter os dedos na boca, uma incrível conquista ao fim de quatro meses de vida. Ah, e chapinhar que nem doida na hora do banho - não admira que ela se divirta tanto dentro de água como uma deputada do PS junto a uma garrafeira. Portanto, há aqui um desequilíbrio evidente entre desejos e capacidades. Nunca tinha pensado nisto antes, mas um bebé ali entre os quatro e os seis meses é uma espécie de acamado, sem a parte das dores (e mesmo assim, têm os dentes e as cólicas). É bastante tramada a vida deles. A pobre da Rita cansa-se de esperar pela coordenação motora. E ela nunca mais vem.
Ora aprendam
Ainda no mesmo site citado no post anterior, um importante cartaz sobre um importantíssimo tema: como dar um bacalhau em condições. Ou seja, à homem:
Em busca da etiqueta perdida
O óptimo site The Art of Manliness propõe-se recuperar a masculinidade perdida e velhas regras de etiqueta. Uma das suas últimas entradas diz respeito a regras de boa educação na era smartphone, que eles promovem utilizando o design de posters vintage e muito sentido de humor. O resultado é fantástico:
Há mais, mas este é o meu favorito:
Há mais, mas este é o meu favorito:
domingo, 13 de janeiro de 2013
Ainda o amor
Primeiro parágrafo do meu texto de hoje na revista de domingo do CM:
Posso voltar a falar de amor? Na semana passada dei-me conta de que escrevo textos atrás de textos sobre a família e a loucura que é criar quatro filhos, e me esqueço quase sempre de falar daquilo que está na base de tudo isso, e sem a qual nada disto seria possível: o amor de duas pessoas. Quem conhece esta página sabe que ela é uma colecção impressionante de desabafos e frustrações, de queixas atrás de queixas. Mas queixarmo-nos é soltar o vapor que nos consome sem sairmos do mesmo sítio. Quer dizer: protestamos, gritamos, choramos – mas permanecemos. E essa permanência só é possível se acharmos que é aqui, no meio da loucura, dos gritos e até do sofrimento, que somos mais felizes. A vida, a rotina mais cansativa, o quotidiano mais furioso, até nos pode empurrar de escarpas e penhascos, mas nós não nos afastamos, porque sabemos onde queremos cair de costas. À certeza desse lugar eu chamo amor.
Apesar da Presidente da Liga continuar amuada por causa da tragédia no Estádio do Areeiro, não deixa de ser sentido. O resto do texto pode ser lido aqui.
A ilustração, como sempre, é do José Carlos Fernandes.
Jogo de tripla
Daqui a uma hora vou estar assim
em vez de estar assim
Portanto, qualquer que seja o resultado, já ganhei.
em vez de estar assim
Portanto, qualquer que seja o resultado, já ganhei.
Um cartoon para domingo #1
sábado, 12 de janeiro de 2013
Excelente desculpa
Quando chega a hora de deitar, o Gui tem todas as noites uma série de pedidos extra que vão servindo para adiar o fecho dos olhos.
- Papá, quero água.
Lá vem um copo de água para ele beber.
- Papá, quero a almofada do teu quarto.
Lá vem uma almofada do quarto para ele encostar à parede.
- Papá, o meu leão não está aqui.
Lá vem o leão de peluche para ele abraçar.
Uma pessoa aguenta isto uma semana, mas depois começa a saltar-nos a tampa. E nos dias em que estou de pior humor, ameaço-o: por cada pedido que ele me fizer já depois de ter apagado as luzes, apanha um castigo (um dia sem ver televisão, um dia sem jogar computador, uma coisa assim, porque quando simplesmente lhe dou um não radical - acreditem, já experimentei - e ele está perdido de sono, o resultado é meia hora a berrar descontrolado).
Há pouco fui particularmente efusivo nas minhas ameaças, e exigi que ele despachasse todos os seus rituais do sono antes de eu sair, para que não tivesse de voltar ali.
Quando, 10 minutos depois, ouço um "papá!" vindo do quarto, fui logo a correr buscar o martelo dos bifes.
- O QUE É QUE TU QUERES, GUI? ESPERO QUE TENHAS UMA EXCELENTE DESCULPA PARA ME ESTARES A CHAMAR!!!!!
E diz-me ele, muito medroso:
- É que o baú das roupas de Carnaval está aberto...
Era verdade. Ele tinha estado a mascarar-se com uns amigos que passaram cá o dia, e deixaram a tampa aberta. Guardei o martelo e perdoei-lhe. Era, de facto, uma excelente desculpa. Aos quatro anos de idade, qualquer coisa que esteja aberta no escuro é um assunto sério. E então quando se trata de roupas de Carnaval, sabe-se lá o que pode sair dali dentro...
- Papá, quero água.
Lá vem um copo de água para ele beber.
- Papá, quero a almofada do teu quarto.
Lá vem uma almofada do quarto para ele encostar à parede.
- Papá, o meu leão não está aqui.
Lá vem o leão de peluche para ele abraçar.
Uma pessoa aguenta isto uma semana, mas depois começa a saltar-nos a tampa. E nos dias em que estou de pior humor, ameaço-o: por cada pedido que ele me fizer já depois de ter apagado as luzes, apanha um castigo (um dia sem ver televisão, um dia sem jogar computador, uma coisa assim, porque quando simplesmente lhe dou um não radical - acreditem, já experimentei - e ele está perdido de sono, o resultado é meia hora a berrar descontrolado).
Há pouco fui particularmente efusivo nas minhas ameaças, e exigi que ele despachasse todos os seus rituais do sono antes de eu sair, para que não tivesse de voltar ali.
Quando, 10 minutos depois, ouço um "papá!" vindo do quarto, fui logo a correr buscar o martelo dos bifes.
- O QUE É QUE TU QUERES, GUI? ESPERO QUE TENHAS UMA EXCELENTE DESCULPA PARA ME ESTARES A CHAMAR!!!!!
E diz-me ele, muito medroso:
- É que o baú das roupas de Carnaval está aberto...
Era verdade. Ele tinha estado a mascarar-se com uns amigos que passaram cá o dia, e deixaram a tampa aberta. Guardei o martelo e perdoei-lhe. Era, de facto, uma excelente desculpa. Aos quatro anos de idade, qualquer coisa que esteja aberta no escuro é um assunto sério. E então quando se trata de roupas de Carnaval, sabe-se lá o que pode sair dali dentro...
Tragédia no Estádio do Areeiro
A Presidente da Liga acabou de ordenar o cancelamento ad aeternum do campeonato de futebol caseiro. Os jogadores estão inconsoláveis.
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