terça-feira, 9 de julho de 2013

Isto provoca-lhe tristeza ou felicidade?

Queria aqui fazer mais uma vénia ao sempre grande Malomil, através do qual descobri a história das irmãs Brown, que se deixam fotografar há 37 anos consecutivos, sempre pela mesma ordem. Da esquerda para a direita: Heather, Mimi, Bebe e Laurie. Aquilo que o Malomil não explica é a qualidade das fotografias a preto e branco, demasiado boas para serem apenas amadoras. Fui pesquisar e não são amadoras, de facto: elas foram tiradas pelo fotógrafo Nicholas Nixon, marido de Bebe, que iniciou o ritual em 1975 e que se propõe continuá-lo para sempre, até as irmãs serem apenas três, duas, uma (ele brinca, neste texto do Huffington Post, que falta ainda pensar no que fazer se o fotógrafo morrer primeiro).

A coisa é tão séria que até já foi alvo de duas exposições no MoMa, a primeira por altura do 25.º aniversário da iniciativa, e a segunda pelos 33 anos. Existem inclusive dois catálogos, o último dos quais eu encontrei à venda na Amazon inglesa pela módica quantia de... 250 libras - mas que se calhar até não é um mau investimento, tendo em conta os preços praticados na Amazon americana, onde a edição de 2002 está a 600 dólares e a de 2008 está a quase... 4000 dólares! Bom, mas um dos encantos da blogosfera é podermos mostrar tudo isto inteiramente à borla, e já com as fotografias actualizadas até 2012 (encontrei os últimos dois anos nesta galeria).

Devo dizer que estou tentadíssimo a iniciar o mesmo ritual com os meus quatro filhos, talvez quando a Rita celebrar o seu primeiro aniversário. Que é uma maneira de dizer: "Era boa ideia a Teresa iniciar este ritual com os nossos quatro filhos, talvez quando a Rita celebrar o seu primeiro aniversário." Os miúdos iriam com certeza adorar ter uma coisa destas quando fossem mais velhos.

Como pequeno apontamento filosófico-existencial, que fica sempre bem em qualquer texto, deixo aqui esta questão, para reflexão dos caríssimos leitores: esta sequência de fotos causa-lhe, em primeiro lugar, alegria ou tristeza? Diria que a resposta a essa pergunta define muito daquilo que nós somos. Eis as maravilhosas fotos das irmãs Brown:

 1975

 1976

1977

 1978

1979

 1980

 1981

 1982

 1983

 1984

 1985

 1986

 1987

 1988

1989

 1990

 1991

 1992

 1993

 1994

 1995

 1996

 1997

 1998

1999

 2000

 2001

 2002

 2003

 2004

 2005

2006

 2007

 2008

2009

 2010

 2011

2012

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Um homem chamado cavalo

Ilustração de José Carlos Fernandes

Eis a minha crónica de ontem na revista do CM:

O título desta crónica é retirado de um western tardio de 1970, que muito me marcou quando o vi na televisão, ainda criança. ‘Um Homem Chamado Cavalo’ conta a história de um aristocrata inglês que na primeira metade do século XIX é feito prisioneiro pelos índios Sioux. No início, ele é tratado como escravo e animal de carga, mas aos poucos vai subindo na hierarquia da tribo, até se transformar num guerreiro respeitado por todos e ser rebaptizado como Cavalo. Neste momento, estou a passar por algo semelhante cá em casa. Também eu fui, de certa forma, raptado por uma (mini) selvagem, embora com a diferença – diria significativa – de que me encontro apenas na fase de animal de carga, e duvido que vá algum dia ascender a guerreiro respeitado.

A responsável pelo meu rapto é a Rita, uma ‘papoose’ com incríveis poderes de persuasão, que não precisa de usar nem flechas nem ‘tomahawks’ para me pôr na linha. Está certo que a Rita não me chama Cavalo, até porque aos 10 meses de vida ainda não aprendeu a falar, mas não tenho a menor dúvida de que me trata como um. E atenção: a frase anterior é para ser entendida no sentido literal. Ou seja, a Rita não me trata metaforicamente como um cavalo – ele acha que eu sou mesmo um cavalo. O cavalo dela, para ser mais preciso.

Ela olha-me todos os dias como se eu fosse a sua montada, e o único interesse que manifesta pela minha pessoa deve-se ao facto de eu lhe parecer o ser vivo ideal para a transportar do ponto A para o ponto B. É certo que ela não controla, em geral, a direcção das minhas deslocações pela casa ou pela rua. Mas isso também não lhe interessa. Ela limita-se a apreciar qualquer passeio que a liberte da força da gravidade que insiste em prendê-la ao chão. E para isso eu sirvo perfeitamente.

De resto, quaisquer gestos de afeição em relação à minha pessoa são semelhantes às palmadas que os toureiros dão aos cavalos depois de levarem umas cornadas. A instrumentalização é total. Se eu estiver de pé e a Rita sentada, os bracinhos começam de imediato a badalar, como se fossem um assobio: “Bichinho, bichinho, anda cá!” E eu vou, claro. E quando, cansado, me sento com ela ao colo? Ui, ui. Aí levo logo com as suas esporas nos meus ouvidos: “Mexe-te, bichinho, mexe-te.” E eu mexo, claro. É como vos digo. Sou um homem chamado cavalo, circulando a trote entre a sala e a cozinha.

A pouco sensibilidade dos meus pequenos filhos para a arte contemporânea

Às vezes os filhos saem aos pais - e isso não é bom. Eu tenho muitas dificuldades com alguma arte contemporânea, sobretudo aquela que extrema de tal forma a sua dimensão conceptual que no final nada resta senão uma ideia obscura, desligada de qualquer técnica ou de um trabalho visível sobre os materiais. Não gosto nada da sensação de estar diante de uma obra que é absolutamente opaca se não for acompanhada da explicação do seu autor ou do curador da exposição. Afinal, interpretarmos aquilo que vemos, lemos ou ouvimos é pelo menos metade da experiência cultural, e se à partida estou impedido de o fazer devido à impenetrabilidade da banalidade (chamemos-lhe assim), a minha reacção imediata é de repúdio. Sinto-me com frequência a um passo da fraude; parece-me uma eterna repetição do urinol do Duchamp - é um gesto que já foi feito, era giro em 1917, e tal, agora dá para seguir em frente?

Ora, ainda menos sensíveis do que o pai às subtilezas de certa arte contemporânea, o Tomás e o Gui deram-me cabo do miolo na exposição sobre o Minimalismo patente no Museu Berardo, que fomos visitar no domingo à tarde. Como se já não bastassem os comentários depreciativos, feitos muitas vezes aos berros, sobre a qualidade do material exposto ("arte? isto são vidros partidos, isto não é arte nenhuma!"), às tantas os miúdos lembraram-se de trepar para cima de uma obra que valia sei lá quantos milhares de euros, causando grande horror em dois vigilantes e uma vergonha do tamanho do CCB aos seus progenitores:

A obra em questão era esta:


Eu sei, eu sei. Parecem dois bocados de madeira. E são dois bocados de madeira. Mas é madeira artística, assinada por Carl Andre, herdeiro do movimento minimalista americano dos anos 60, e que convém não espezinhar com sapatilhas.


Claro que isto vem com um problema acrescido: como explicar aos miúdos que aqueles dois bocados de madeira não são apenas bocados de madeira? Faltou-me o apoio do Carl Andre ou do próprio Joe Berardo. Não é fácil. Posso tentar explicar que os dois barrotes são uma espécie de rosa dos ventos, e que aquele que está deitado aponta mesmo para sul, como o nome indica, e que portanto a peça só faz sentido quando inserida num espaço arquitectónico. Mas... continua a não ser fácil.

Por um lado, eu e a Teresa sentimo-nos na obrigação de os corrigir de imediato e de os ensinar a comportarem-se em museus. Por outro, convém não descartar a sabedoria da história do rei vai nu, com a verdade a sair da boca (ou, neste caso, das sapatilhas) das criancinhas...

sábado, 6 de julho de 2013

Homens sob influência

O fotógrafo espanhol Jon Uriarte criou esta série de imagens perturbantes a que deu o nome "The Men Under the Influence...", um trocadilho com o famoso filme de John Cassavetes. Muito mais do que simplesmente vestir homens com roupas de mulher, o que Uriarte propõe é uma reflexão sobre aquilo de que não me canso de falar aqui: a radical alteração da dinâmica tradicional dos casais heterossexuais nos últimos 20 ou 30 anos. As palavras que se seguem são de Uriarte, justificando o seu trabalho, mas podiam perfeitamente ser minhas:

"The Men Under the Influence incide na recente alteração de papéis nas relações dos casais heterossexuais. Ele procura representar a sensação de perda de referências por parte do homem quando se relaciona com mulheres que conseguiram finalmente conquistar o seu próprio espaço, e como esse triunfo por parte delas cria uma sensação de extravio por parte deles. O projecto é composto por retratos de homens vestidos com as roupas das suas companheiras, realizados em lugares partilhados pelo casal."

Felizmente, eu não caibo dentro da roupa da Teresa.










sexta-feira, 5 de julho de 2013

Uma Barbie com o corpo médio americano

O artista norte-americano Nickolay Lamm decidiu desenhar uma Barbie com as medidas médias oficiais de uma jovem americana de 19 anos. O Huffington Post tem a história. E eis o resultado:






quarta-feira, 3 de julho de 2013

Surf Mania

Desde que nos mudámos para o Areeiro o surf passou a fazer parte da nossa vida. Nenhum de nós tinha experimentado surfar, mas quase todos os dias, ao chegar à cozinha de manhã, nos deparávamos com o fato de surf de um dos filhos dos nossos vizinhos do lado pendurado na corda da roupa. Achávamos imensa graça vê-lo chegar à tarde do trabalho de fatinho e gravata e a sair logo a seguir de prancha na mão, fizesse chuva ou sol.

No mês passado resolvi interpelá-lo no elevador, e fiquei tão impressionada com os benefícios para a saúde física e mental de que ele me falou, que resolvi procurar uma boa escola de surf para aí inscrever a Carolina e o Tomás na primeira semana de férias, como prémio do final do ano escolar e reconhecimento pelo muito que trabalharam. 

Acabei por perceber que o surf é um dos desportos mais completos, trabalhando todos os grupos musculares, excelente como exercício cardiovascular e perfeito para o treino do equilíbrio e coordenação motora. Isto para não falar de que é um excelente exercício de relaxamento, no qual o contacto directo com a natureza tem um papel essencial. Além disso, é indicado para praticamente todas as idades, dos 5 aos 85, desde que a saúde cardiovascular assim o permita, o que deixou alguma esperança - em mim e no João - de ainda virmos a conseguir "curtir" umas quantas ondas, apesar do reumático. Segundo as palavras dos surfistas, não há nada que um dia de surf não cure.

Convencer o Tomás a participar foi o mais complicado (o João já aqui falou disso), mas lá consegui dar-lhe a volta - e depois de experimentar já ninguém o ouvia falar de outra coisa. Ele era "Aloha" para cá, "drop" e "take-off" para lá, desenhando surfistas em tubos e sonhando ser um Big Rider (leia-se "surfista de grandes ondas"). 

Já a Carolina adorou a ideia desde o primeiro momento e no final do dia de estreia já dizia que era uma surfista profissional (como seria de esperar, pois a ela sobra-lhe a confiança que falta ao Tomás).

De entre as imensas escolas disponíveis escolhemos a Samadi. Apesar de não ser muito barata (o preço depende do número de participantes do grupo e, no nosso caso, eram só dois), o valor incluiu fato, prancha, almoço, duas aulas de surf diárias, seguro, várias actividades de diversão durante a digestão e as horas de sol proibitivo, visita a uma fábrica de pranchas, registo fotográfico de algumas aulas, e ainda transporte, o que acabou por compensar largamente. Os monitores são credenciados pela Federação Portuguesa de Surf e pela Universidade Lusófona e não lhes faltou paciência e simpatia para virar a cabeça do Tomás, o que só abona a favor deles.

Duas semanas depois, eis as fotos que provam o sucesso da experiência. Que certamente não vai ficar por aqui.

Um olhar e um sorriso cheios de confiança.

E não é que ela conseguiu mesmo?

I'm the queen of the world!

Aguenta-te, Tomás!

Ai, ui, ui, ai, quem é que está a abanar o chão?

Yes!

terça-feira, 2 de julho de 2013

Por favor, não tente isto numa piscina

Ok, isto é realmente incrível e muito, muito assustador:


Assim à primeira vista, apetece chamar a Comissão de Protecção de Menores e mandar prender os pais, mas a verdade é que a criança sabe mesmo nadar. Nunca tinha visto ninguém tão pequeno mover-se assim dentro de água, e aquela técnica impressionante de respiração teve certamente de ser praticada durante imenso tempo. Há mais aqui.

Parece que esta miúda foi treinada por uma empresa americana especialista numa técnica chamada ISR (Infant Swimming Resource). No site eles explicam que o afogamento é a primeira causa de morte de crianças com menos de quatro anos em 19 estados americanos. Daí o desenvolvimento da ISR, cujo objectivo é ensinar as crianças a sobreviver em meio aquático, se por acaso caírem acidentalmente dentro de água. Cool, não?

Depois de ver o vídeo, googlei e descobri que existe um ISR Portugal e tudo. Alguém conhece ou já experimentou?

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Vai para a escola, Rita

Ilustração de José Carlos Fernandes

Eis o meu texto de ontem na revista do CM:

Os meus três primeiros filhos nasceram entre 21 de Fevereiro (Carolina) e 2 de Março (Tomás e Gui), com tamanho rigor de relojoeiro (iam aparecendo meticulosamente de dois em dois anos) que os meus amigos ainda hoje têm uma certa dificuldade em acreditar em mim quando lhes digo que nenhum deles foi planeado. Mas não foram planeados, de facto, ou, se foram, juro que a minha excelentíssima esposa nunca mo contou. Mas o que importa para aqui é que mesmo no meio do acaso – ou do alegado acaso –, os astros se alinharam impecavelmente: tendo todos nascido no fim do Inverno, os miúdos ia ganhando corpo e bronzeado nas estações do calor, e quando Setembro chegava já estavam prontos para irem direitinhos para o infantário, aos seis meses de idade.

Os pais costumam preocupar-se muito com a data certa para colocar os seus filhos no infantário. Aos seis meses parecem pequenos demais; aos três anos parecem grandes demais; os pediatras têm opiniões divergentes sobre o tema; e basicamente ninguém se entende sobre o que fazer. Na nossa família, contudo, não chegou a haver debate, porque não havia outra opção: os avós vivem a 200 quilómetros, eu e a Teresa tínhamos o nosso trabalho, e portanto todos eles estavam fora de casa aos seis mesitos. E devo dizer que, até hoje, é uma decisão de que nunca me arrependi. A escolinha é óptima, os miúdos crescem no meio de outras crianças, das quais são hoje literalmente amigas desde o berço, e nunca tive de aturar choros nem birras matinais na hora de dizer adeus.

Em compensação, a Rita lixou-nos todas as contas. Ela faz hoje [ontem] 10 meses e continua em casa, pela simples razão de que desta vez o não-planeamento nos saiu furado: nasceu a 30 de Agosto, e portanto só pode entrar para o infantário em Setembro, com um ano de idade. Qual é o problema? O problema é que está a ficar uma mimada de primeira. Uma princesinha cheia de manias. Uma viciada em atenção. Se a Rita estiver a ser estimulada a toda a hora ou no laréu, não se ouve um pio da madame. Mas basta ficar cinco minutos sozinha no parque ou na cadeirinha para começar a afinar a garganta. Ela está mesmo a precisar de ser enfiada numa sala com gente do seu tamanho. A vida numa república pedodemocrática (vulgo infantário) é essencial para um bebé perder as manias de aristocrata e perceber que o mundo não gira à volta dos seus dentes de leite.