segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Um novo blogue a partir de amanhã

Os astros devem ter percebido que eu fazia 40 anos em 2013 e resolveram presentear-me com uma série de mudanças radicais na minha vida profissional. A crise dos 40 costuma bater nas pessoas a nível pessoal - dúvidas existenciais, a morte lá à frente, a juventude lá para trás, o que é que eu fiz da minha vida?, e patati, patatá. Pois a mim, em vez de me bater existencialmente (pelo menos até agora), bateu-me profissionalmente: saí do Correio da Manhã, entrei no Público, saí da Time Out, tornei-me freelancer, e agora chegou a vez deste blogue mudar.

Após cerca de um anexo com o Pais de Quatro na Clix, eu e a Teresa decidimos mudar para a Sapo. Sempre fomos tratados com muita simpatia na Clix - vai daqui um abraço e um obrigado para o Roberto -, mas no meio deste turbilhão de mudanças decidimos também imprimir um novo fôlego ao blogue junto de uma nova equipa. Assim, as caríssimas leitoras e os caros leitores passam a encontrar-nos aqui:


Por causa de todas estas mudanças o Pais de Quatro tem estado bastante gaguejante nos últimos tempos, mas agora irá certamente regressar cheio de força.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Sobre a hipersexualização das crianças

O Público traz hoje uma notícia interessantíssima sobre a tentativa de interditar em França os concursos de beleza para miúdas com menos de 16 anos. A medida já foi aprovada pelo Senado francês e terá agora de ser votada favoravelmente pelos deputados da Assembleia Nacional para entrar em vigor. A iniciativa é de uma antiga ministra e actual senadora, Chantal Jouanno, que tem vindo a levantar a questão da “hipersexualização” das crianças, sobretudo depois da enorme polémica envolvendo a jovem francesa Thylane Lena-Rose Blondeau e a sua produção fotográfica para a Vogue de Dezembro 2010/Janeiro 2011.

Sendo eu um liberal, considero que todas as interdições devem ser profundamente ponderadas, até porque está aqui em causa uma limitação à liberdade dos pais, e eu desconfio sempre que um qualquer Estado nos quer ensinar como nos devemos comportar com os nossos filhos. Mas neste caso, estou tentado em concordar com a medida de Jouanno. Felizmente, em Portugal não existe aquela tradição americana (e, pelos vistos, francesa) dos concursos de beleza infantil - os child beauty pageants -, que mais parecem inacreditáveis freak shows para polir o ego dos paizinhos de meninas loiras e de olhos azuis. Mas a questão da hipersexualização das crianças é uma realidade incómoda, e o exemplo da produção de Thylane Blondeau nas páginas interiores da Vogue, feita quando ela tinha nove anos, é um bom exemplo. Isto, mesmo para um liberal, é ir além dos limites do bom gosto:





Claro que eu odeio fundamentalismos nesta matéria, e há um politicamente correcto mais ou menos obsessivo, muitas vezes alimentado pelos casos de pedofilia, que a única coisa que serve é para escamotear a complexíssima questão da sexualidade no fim da infância e na entrada da adolescência. O tema é, aliás, tão sensível, que é quase impossível debatê-lo no espaço público sem se ser acusado disto ou daquilo. O caso da jovem Thylane Blondeau é particularmente interessante, porque é como se a tal hipersexualização não lhe pudesse ser arrancada da pele, mesmo quando está apenas a olhar para a câmara, como nesta foto (ainda que a posição daquele ombro não seja propriamente inocente por parte do fotógrafo):


Mas isto é conversa para outra altura. O que interessa aqui é que, complexidades etário-sexuais à parte, há códigos de imagem na moda que estão bem estabelecidos, e objectos que por si só estão hipersexualizados - e que por isso não faz qualquer sentido serem usados por uma criança em sessões fotográficas: lençóis com peles de leopardo, vestidos dourados com decotes intermináveis, sapatos com saltos agulha, baton vermelho-sangue. Sim, esta foi uma produção de muito mau gosto da Vogue. E no entanto, bastava a revista ter feito no interior aquilo que fez nesta capa:


Isto é uma criança a fazer de criança. Aquilo lá em cima é uma criança a fazer de sex symbol para adultos. Tal como pô-la em cima de um palco a competir com uma dúzia de meninas pelo troféu de A Mais Bonita é uma transferência das categorias estéticas dos pais para cima de miúdos que se estão naturalmente nas tintas para tudo aquilo se não forem espicaçados pelos progenitores. Portanto, proíba-se. As crianças têm o direito de ser apenas crianças.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Fish kissing

A nossa filha Carolina costuma tapar os olhos, envergonhada, quando apanha os pais a beijarem-se. Uma das últimas vezes resolveu classificar o nosso beijo como o de um peixe. E exemplificou:




Podia ser pior. Temos que ver a coisa pela positiva. O Tiago Guillul, pastor baptista panque-roquer, tem uma música chamada Beijas como uma Freira, e eu lembro-me de ter ouvido a sua mulher Ana Rute Cavaco a contar na televisão, muito embaraçada, que uma das filhas cantava habitualmente as canções do pai na escola. Mal por mal, antes beijar à peixe do que à freira.


O fim de um ciclo (e o princípio de outro)

Hoje é o meu primeiro dia oficial como jornalista freelancer. Por razões que não interessa estar aqui a explicar, até porque custa um bocadinho falar disso, resolvi deixar o cargo de director-adjunto da Time Out, empresa que ajudei a fundar e a trazer para Portugal em 2007. Desde que comecei a trabalhar no projecto até ao dia em que decidi sair foram mais de sete anos de muito empenho, muitas vezes nadando contra a corrente: a quantidade de gente que nos disse que a Time Out Lisboa nunca iria vingar foi bastante maior do que aquela que nos disse para seguir em frente.

Mas a verdade é que a revista se impôs, com um público fiel e um estilo muito próprio. Fomos capazes de criar uma marca de sucesso, que faz hoje semanalmente parte do mapa genético de Lisboa - mas não só: a revista também está no Porto (com periodicidade mensal), tem várias edições especiais para turistas e para miúdos, organiza umas festas de arromba, e tanto, tanto mais.

Mas, sobretudo - e é aquilo de que mais me orgulho -, conseguimos criar uma equipa coesa e muito unida, onde a amizade e a solidariedade foram frequentemente o combustível que permitiu ultrapassar o cansaço e a falta de meios. Sempre disse que essa era a parte mais fascinante de se ser uma espécie de empresário: reunimos pessoas que por causa de nós se conhecem, ficam amigas para a vida, começam a namorar, têm filhos. E depois, passados alguns anos, quando olhamos para trás, percebemos como de uma ideia muito simples - fundar a Time Out Lisboa - nasceu uma multiplicidade de ligações e de relações, que sem esse mini-Big Bang inaugural nunca teriam chegado a acontecer.

É uma maneira muito bela, e muito profunda, de tocar nas vidas dos outros. E no meio de tudo o que fica para trás, é disso que vou sentir mais falta.



Capa da primeira Time Out Miúdos, com ilustração do Bernardo Carvalho

Carrossel de gastroenterites

Nós sabíamos que isto ia acontecer - assim que a Rita pusesse um pezinho no infantário, os vírus e as bactérias iriam atirar-se a ela como cães a um osso. É o que dá estar um ano enfiada no ambiente protegido da sua casa e depois ser lançada (literalmente) aos bichos. No início do mês, ao fim de dois dias já estava com uma laringite. Depois nós fomos para Nova Iorque e ela recuperou alegremente em casa dos avós. No final da semana passada, regressou ao infantário. Ao fim de dia e meio estava com uma gastroenterite. E das boas - a dita cuja já deu cabo de mim, da mãe e do Gui (até ver).

É um carrossel de gastroenterites que invariavelmente se transforma num carrossel de noites mal dormidas, a acorrer a um porque vomitou a cama, a outro porque a diarreia saltou as barreiras da fralda, a mais um porque está com pesadelos, e juntando a isso o facto de eu e a Teresa estarmos com aquela sensação de termos sido atropelados por uma manada de bisontes. Ah, como é linda a paternidade.

A única coisa boa de estar doente é nós termos mimos extras, seja da esposa, seja dos filhos, em formato de torradas, chá quente ou derivações artístico-queriduchas. Ontem a Carolina viu-me tão em baixo que resolveu dar-me esta prenda, que ela desenhou no iPad:


Fofinha, não? Mas, claro, se isto já está assim com a Rita e ainda estamos no Verão, nem quero pensar no que vai ser o nosso Inverno. Acho que tenho muitos desenhos para receber...

sábado, 14 de setembro de 2013

Concerto em bicos dos pés

A Rita tem imensa sorte. Isto de ser a quarta filha e crescer com uma irmã e dois irmãos de idades muito próximas mas com interesses muito diferentes, aumenta-lhe imenso a paleta de descobertas em tenra idade. Com um ano acabado de fazer, já se consegue perceber bem que a música é uma das coisas que mais lhe interessa. É irresistível observá-la a abanar o capacete ou vê-la de dedinho no ar quando ouve qualquer melodia, e toda a família sabe, pelo entusiasmo da sua reacção, qual é a música preferida da Rita quando à noite cantamos ao Jesus.

Geralmente, quando me sento a estudar piano com a Carolina, a Rita fica ao meu colo e tenta freneticamente chegar às teclas. Fartamo-nos de rir com as suas peças desajeitadas mas muito empenhadas. Agora que ela está mais crescida e já explora a casa toda com independência, não precisa do colo para dar aso à sua criatividade. Basta esticar-se e iniciar o seu mini-concerto como qualquer pianista profissional - sem olhar para o teclado.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

In every age, O Lord, you have been our refuge

O salmo de ontem, que cantámos na catedral de St. Patrick, no dia dos 40 anos do João.


40

O homem da minha vida fez ontem 40 anos!



Já não usa os oculinhos à Harry Potter (que usava muito antes deste ser criado), nem escreve cartas com 50 folhas para aproximar a distância que nos separava (eu vivia em Castelo Branco e ele em Portalegre).

Já não passa o dia inteiro com o saco do Público na mão (era reconhecido na faculdade por isso e os pais encheram uma arrecadação com os exemplares que guardava religiosamente desde o número 1), nem usa o seu colete cheio de bolsos com o qual dava asas ao desejo de vir a ser jornalista.

Os óculos acompanharam as tendências e a versão app do Público poupa as florestas do planeta, mas ele é hoje para mim muito mais do que eu podia imaginar quando o conheci há 23 anos: o meu marido, o meu namorado, o meu melhor amigo, o meu maior crítico, o pai dos meus quatro filhos, o meu amante, o meu herói, o meu punching bag. Amanhecer ao seu lado continua a ser um dos maiores prazeres desta vida e adormecer no seu abraço volatiza qualquer problema que me aflija.

O dia acabou com o João a apagar as 40 velas num muffin de chocolate. Ia deitando fogo ao hotel a acendê-las, mas valeu a pena. Aquele bolo éramos nós: um espaço pequeno onde cabe tanta, tanta coisa.





quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O-Ohhhhh 2!

Depois da descoberta das estantes de DVDs, a Rita apaixonou-se entretanto pelos Playmobil do papá dos manos. Podemos depositá-la na outra ponta da casa que, em segundos, ela lá vai rabinhando até ao quarto do Tomás e do Gui, para logo de seguida, qual Godzilla, espalhar o caos pelas redondezas. É como se tivesse um GPS na cabeça que lhe indica os melhores caminhos para chegar à asneira. E ela utiliza-o na perfeição.

Rita Godzilla prepara-se para atacar um forte do faroeste. As armas dos pobres 
soldados nada podem contra as investidas do terrível monstro cor-de-rosa.

Rita Godzilla vira do avesso uma canoa, com um infeliz índio lá dentro, 
perante a impotência da sua tribo. O que lhe irá acontecer?

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Parabéns, Ritinha!

A nossa Ritinha fez um ano na sexta-feira, e para que todos os manos e avós (biológicos e de coração) pudessem celebrar com ela o aniversário, viajámos desde Lisboa até aos Montes da Senhora (200 quilómetros) e dos Montes da Senhora até à praia da Oura, no Algarve (450 quilómetros). Foi uma verdadeira maratona automobilística - mas o acontecimento assim o exigia.

Desta forma, a Rita teve direito a duas festas, a dois bolos e a duas velas (uma delas em formato app, porque na família não há fumadores e ninguém nas proximidades tinha um isqueiro para acender a vela), além de beijos e mimos à farta.

A Rita celebra o primeiro aniversário nos Montes da Senhora às 15 horas

A Rita celebra o primeiro aniversário na praia da Oura às 22 horas

Os manos estavam verdadeiramente orgulhosos da sua mana bebé e vibraram com o dia como se fosse o seu próprio aniversário. Houve prendas fofas e cartazes super-elaborados.


Só por isso os erros de sintaxe foram perdoados.


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O tamanho conta

Algumas reacções a este post estão a fazer-me sentir um terrível pervertido. Por causa disso até fiz ontem à noite um teste à excelentíssima esposa com a capa do Lolita, antes de ela ler o post. E a verdade é que só à segunda é que a Teresa ligou as paredes às pernas e o tecto às cuecas brancas de uma menina. É estranho como para umas pessoas aquilo é absolutamente do domínio do óbvio, enquanto outras têm de esfregar os olhos várias vezes para ver o que lá está - e ainda assim não ficam completamente convencidas.

Será uma coisa gajo-gaja, dentro daquela lógica "os homens estão sempre a pensar naquilo"? Provavelmente por eu estar sempre a pensar naquilo, lembrei-me de um vídeo de Ze Frank que vi há tempos, chamado "A Song for Freud", cujo refrão pode ser traduzido por "se procurares bem, encontrarás uma pila praticamente em todo o lado" - e as imagens do vídeo provam a tese com alguma eficácia. Ora vejam:


Como o próprio Ze Frank aconselha, "não cantem isto nos elevadores" - um risco sério, porque o raio da canção é daquelas que fica mesmo no ouvido.

Mas tendo eu dúvidas sustentadas sobre a tese "eles só pensam em sexo" versus "elas só pensam em filhos" (embora eu me queixe bastante desta segunda parte - sobre a primeira, a minha mulher que responda), prefiro deixar a justificação mais do lado da física e da óptica do que do lado da psicanálise. Esqueçam o Freud, portanto. O que se passou, provavelmente, é que coloquei as leitoras deste blogue demasiado próximas da parede. Ou seja, assim a capa percebe-se com dificuldade:


Mas assim já se percebe muito melhor:


Que é um outro modo de dizer: sim, o tamanho conta.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Lolita nas paredes

O Lolita de Nabokov é um eterno espectro sobre a cabeça da humanidade, um livro onde a absoluta imoralidade é elevada à condição de arte (Pedro Almodóvar fez o mesmo connosco em Fala com Ela, onde a violação de uma mulher em estado de coma é transformada à nossa frente num profundo acto de amor). Agora, um novo livro, chamado Lolita - The Story of a Cover Girl: Vladimir Nabokov's Novel in Art and Design (sai dentro de dois dias e já está disponível em pre-order na Amazon inglesa), analisa as subtilezas do tratamento gráfico que as capas do livro foram tendo ao longo do tempo, e convoca uma série de designers para fazerem novas propostas para o livro de Nabokov. Há várias ideias originais, mas uma delas é do outro mundo, e talvez seja mesmo a primeira vez que uma capa está à altura da obra-prima original. É assinada pelo designer britânico Jamie Keenan:


Quão pervertido é preciso alguém ser para ver as pernas e as cuecas de uma miúda de 12 anos no canto de um quarto? Não faço ideia. Mas posso garantir-vos que nunca mais vou olhar para um tecto da mesma forma. A melhor arte é isso, suponho eu - altera-nos a forma como vemos certas parcelas do mundo. Já encomendei o livro, como é óbvio. E vou passar a seguir o trabalho deste senhor Keenan com a maior atenção.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O "enlarge your penis" vive!

É só para dizer que acabei de receber um mail na caixa de spam que se oferece para aumentar o meu pénis (até oito centímetros!) e fui invadido pelo doce sabor da nostalgia, tal como se subitamente uma fragrância inesperada me remetesse para uma doce memória de infância. Há vários anos que ninguém se oferecia para me aumentar o pénis (salvo seja), para minha grande tristeza. Hoje em dia o spam só me propõe negócios milionários com senhores do Zimbabwe desde que eu faça uma qualquer transferência financeira, ou então simula mails falsos de bancos para conseguir acesso aos meus dados pessoais - e isso não é de todo a mesma coisa. É o dinheiro a ganhar cada vez mais território ao sexo. Não me parece bem.

Eu quero o bom e velho spam, que promete extraordinários melhoramentos à minha performance sexual. Desconheço o senhor que me enviou este mail, mas posso garantir-vos que é um "enlarge your penis" à moda antiga, onde nem sequer falta o depoimento entusiástico a que um homem diminuído tem direito, desta vez por Edvado Silva, 24 anos, natural de Mato Grosso:

Comecei os exercícios há dois meses e meio e já noto um aumento de 2 cm no comprimento e 1 cm na grossura de meu pénis. Minha namorada, que não acreditava no programa, é quem faz as medições. Estamos muito satisfeitos com estes resultados já obtidos. Quero parabenizar e agradecer a equipe por oferecer um tratamento que realmente funciona.

Ah, que maravilha. Gosto sobretudo da parte em que ele garante que é a namorada (que apesar de tudo nunca o abandonou) "quem faz as medições", ainda por cima logo ela, "que não acreditava no programa", como se fosse um membro do governo civil particularmente céptico sobre a legalidade de determinado concurso. Tudo isto é muito bonito. Quero, pois, aproveitar também eu para "parabenizar" os senhores que tiveram a amabilidade de me tentar intrujar com tanta simpatia. Já tinha saudades.